sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Histórias de um entregador de sonhos - 8 'Sra. Carbot'

O ruído de máquinas de escrever e pássaros pulando de um lado a outro parou por um segundo. Depois de me analisarem por uns instantes, retornaram aos afazeres se movendo de um modo quase mecânico. Você pode não acreditar, mas, ao ouvir o estalo da fechadura atrás de mim, senti cada osso e órgão dentro de mim, como se o mundo todo tornasse a girar sob meus pés.

- É por ali, garoto.

O segurança corpulento me empurrou meio sem jeito. Enquanto era conduzido entre as inúmeras escrivaninhas, contornava as imensas pilhas de envelopes em escaninhos multiplamente compartimentados. Eu me sentia passeando nos corredores de uma colmeia de vespas, prestes a de ter o olho perfurado se me virasse para alguma daquelas pessoas esquisitas.

- Quer um pouco de água, rapaz? Você parece tonto.

- Foram muitas voltas.

- Sim. Não é um bom lugar para se perder.

A mão do segurança pesou gentilmente em meu ombro na tentativa de me acalmar. Aproveitei para fazer uma pergunta:

- O que eles estão fazendo?

- Não sei bem. Sra. Carbot diz que aqui é onde tudo se mantém funcionando.

Depois da resposta, que considerei evasiva, o segurança assoviou alegremente enquanto continuava a me conduzir em círculos a lugar algum. Talvez aquilo servisse para que eu não fosse capaz de voltar pelo mesmo caminho. Era certo que me perderia se ele resolvesse correr e sumir em algum beco à meia luz. Eu me amaldiçoei mil vezes por ter acordado cedo, por dar ouvidos àquela conversa de pagamento em ouro.

“Seu idiota”, resmungava sem abrir a boca.

As minhas pernas já estavam pesadas quando contornamos a última escrivaninha separada por divisórias. A única entrada naquela parede alta e extensa era uma porta cuja janelinha escura não transparecia nada do outro lado. Ele bateu com os nós dos dedos na superfície branca sem tirar os olhos de mim. Ouvi o som de cabo de aço esticado de cima, girando. Parecia uma roldana dentro de um fosso. Depois de alguns segundos, as dobradiças de uma velha porta pantográfica rangeram. O barulho me fez sentir nervoso na raiz dos dentes.

Ele abriu a porta sem cerimônias.

- A partir daqui você deve ir sozinho. É Só seguir até o final do corredor. Ah. E cuidado com a mão – avisou num sorriso franco. - Já vi alguns sujeitos perderem o dedo nessa porta. Sra. Carbot fica chateada quando isso acontece. Não temos seguro de saúde, você sabe.

- Obrigado, Sr. Trajano – agradeci tentando expressar sinceridade.

- Disponha! – me empurrou, animado, para dentro e fechou a porta.

Fiquei encolhido num canto do elevador e apertei o único botão no meio do painel dourado. Conforme subia, meu estômago pesava devido à alta velocidade. As luzes trêmulas ameaçavam a todo instante apagar. Pelo ruído dos cabos, deviam estar enferrujados e não eram trocados há séculos.

Além das maçanetas, portas, canos e todo tipo de utensílio possuir a estranha marca do trevo seguido do numeral quarto ordinário. Havia uma daquelas placas metálicas sobre o botão e no lustre que envolvia a lâmpada. Li os avisos de segurança com a mesma marca. Um trecho me chamou a atenção:

EM CASO DE EMERGÊNCIA, NÃO FECHAR OS OLHOS.

Quando o elevador parou, esperei a pantográfica mutiladora de dedos se abrir sozinha.

Não havia nada além de um corredor ladeado por portas mais diversas que você pode imaginar. A princípio, achei engraçado. Conforme caminhava sobre um extenso tapete verde felpudo , eu me sentia como Charlie na Fábrica de Chocolate. Todas aquelas portas altas, baixas, redondas, retangulares, portas de papel e de cobre. Algumas pareciam feitas de marfim com acabamento de couro, outras eram escamosas e brilhantes. Poderia dizer para você que estavam vivas e respirando, a espera de algum intruso para devorar.



Apertei os passos e abracei meu próprio corpo sem olhar para os lados. O pensamento aterrorizante de que encontraria uma porta que possuísse olhos, talvez dentes em uma grande boca fez minha pele se arrepiar. Pensando bem agora, acho que foi um exagero meu. Não havia nada de ameaçador, nem mesmo um ruído.

Não estava nem um pouco tranqüilo quando atingi a última porta. Uma placa de latão indicava que era o lugar certo.

SRTA. CARBOT – RH 

Estava gravado em letras grandes.

Girei a maçaneta e meti timidamente a cabeça pela fresta.

Não conseguia ver com clareza a parte de cima dos arquivos e armários espremidos na sala em meio à névoa. Apesar de ser um cubículo com pouco mais de quatro metros quadrados, o teto era alto, mais alto do que o topo de uma velha catedral. Senti um pouco de vertigem e esfreguei os olhos. Tive a impressão de não conseguir ao menos enxergar as vigas de sustentação lá em cima. Apertei os olhos para ver melhor. Uma sombra cruzou o espaço.

“Aves?”

Pareciam aves sobrevoando ao longe. As retinas ardiam. Depois de alguns segundo mirando diretamente para o alto, tive a impressão mais estranha da minha vida, a impressão de que, se olhasse por mais tempo, meus pés descolariam do chão e, em seguida, eu cairia para cima, me perdendo naquela estatura descomunal. Imediatamente baixei os olhos observando as rachaduras entre os tijolos na parede. Meu olhar se fixou a uns dez metros do chão, em uma espécie de janela. Era daquelas passagens de luz bastante comuns sobre a porta de entrada de casas dos bairros mais antigos. Não dava para saber a altura com exatidão, mas era por ali que vinha a maior parte da luminosidade. Do outro lado daquela abertura parecia ainda ser tarde da noite, ou pouco antes de amanhecer, talvez os dois. Uma brisa suave empurrava a névoa para dentro em espirais. Certamente era um lugar bem agradável, pensei.

De repente, uma voz ressecada chamou minha atenção para uma sombra em meio à névoa esverdeada.

- Uhm. Uhrrum. Bom dia.

O ventilador no canto da sala começou a girar. A fumaça vagarosamente se dissipou. Havia uma pequena mulher concentrada em um amontoado de documentos. Aquele rosto inexpressivo poderia ser confundido com uma geladeira usada. Sem tirar os olhos da papelada, ela se apressou em apagar o cigarro no cinzeiro e me chamou num aceno. Dei meio passo, quando, de repente, algo voou por cima de sua cabeça e soltou um punhado de envelopes pardos de onde saltaram montes de folhas. A coisa se espatifou fora do escaninho como um castelo de cartas. Nada se moveu além dos fios de cabelo da mulher.

- Ignore essa engraçadinha – ela apontou para a cadeira com uma caneta. – Elas fazem isso de propósito, bando preguiçosos. Fique à vontade.

- Obrigado.

Antes que pudesse me acomodar na cadeira, a mulher lançou o olhar sobre o aro fino e redondo dos óculos e perguntou:

- Com que freqüência o senhor tem pesadelos?

- O quê?

- Sonhos ruins. Quantas vezes você sonhou coisas ruins na última semana?

Era uma pergunta que uma psiquiatra ou maluco fariam.

- A senhora não quer saber minha identidade ou algo do tipo?

A mulher levantou a cabeça ajeitando os óculos na ponta do nariz e permaneceu calada. É claro que meu sorriso condescendente não alterou um milímetro da sua expressão de porta trancada. O silêncio me deixou ainda mais nervoso.

Encarei-a:

- Bem. Há algumas noites. Acho que tive um sonho ruim.

Os dedos se cruzaram sobre os envelopes como se eu não fosse mais tão desinteressante assim.

- E como foi?

- Antes de tudo, se não for muito abuso de minha parte, sabe, você poderia me explicar o que vocês fazem exatamente aqui?

- Sr. Noel já deve ter explicado que pagamos muito bem, não?

- Ele disse. Mas não me disse exatamente o que acontecia, - apertei os joelhos. - E o outro cara, como morreu?

- Não explicou que era uma empresa de entregas?

- Claro, claro. Isso eu sei. Não entendi muito bem que tipo de entrega... com todo respeito, dona, a explicação foi muito vaga. Eu preciso muito saber o que vou fazer aqui.

- Como quiser, garoto. Se não pode trabalhar em nossa empresa de entregas, pode voltar para casa.

Ela tornou a rabiscar, avaliar e carimbar os papeis como se eu fosse menos que a fumaça do cigarro que havia acabado de acender.

“Droga” praguejei mentalmente.

A lembrança de meus pais e da TV acenderam feito lâmpadas de Natal. Eles iriam me matar. Faltava apenas um dia. Talvez me chutassem para fora de casa por causa da TV. E Judas. Não tinha nem um pouco de comida para meu cachorro. Não tinha comida nem para mim. Mesmo que não me expulsassem eu iria acabar morrendo de fome.

- Vocês pagam diariamente? – perguntei.

Nada. Nem uma ranhura de expressão naquele rosto de porta de geladeira. Eu me movi no assento até o silêncio perturbador da mulher me vencer pela segunda vez.

- Trem – bufei. – É meio estúpido, mas tive um pesadelo com um trem voando em direção ao meu quarto esses dias. Um monte de luzes verdes. Meu cachorro ficou louco e – pensei duas mil vezes antes acrescentar algo sobre garota-do-trevo-de-quatro-folhas – e foi horrível. Só isso.

A menção da palavra trem pareceu atingi a dona ao ponto de fazer com subitamente largar a caneta na mesa.

- Não é verdade – disse. – Você deve estar enganado. Isso não me pareceu um pesadelo. Mas podemos acabar com essa dúvida num instante. Espere um pouco.

Da gaveta, Srta. Carbot tirou uma máquina estranha toda empoeirada. Era muito semelhante a um telégrafo antigo que eu já tinha visto numa enciclopédia quando criança, só que aquele tinha um pequeno globo transparente com raios estáticos dentro.

Ela pôs bem no centro da mesa e ordenou:

- Vamos, venha cá. Aperte isso.

Pouco aproximei minha mão direita do botão e o globo se encheu de luminosidade esverdeada, igual a uma pedra preciosa. Os raios dançaram ao redor do centro produzindo um barulho de rachadura. Eu não tive tempo de encostar, pois Srta. Carbot pulou sobre a mesa derrubando as folhas e segurou meu pulso.

- Tudo bem! Afaste sua mão.

Vagarosamente, pus os dedos suados no bolso.  Ela continuou apreensiva.

- Não é possível – murmurou consigo mesma. – Você não parece o tipo, bem, não é um sonhador. Vejamos... – observou mais um instante a esfera antes de guardar o aparelho de volta na gaveta. - Ao menos não parece ser um mal sujeito, um tipo maluco que persegue as pessoas por aí, não é?

Esboçou mal o primeiro que foi também o último sorriso.

- Enfim, isso também não interessa. Terá que servir.

Tirou algumas folhas de diversas cores e ajeitou uma sobre a outra com carbono entre elas.

- Preciso só de mais uma coisa, sonhador. Pense muito bem no que você vai responder, porque seu pagamento, ou melhor, o resto de sua vida dependerá disso.

“Em que inferno estou me metendo” pensei.

- Qual é o seu sonho?

Aquela pergunta acertou meu rosto como um chicote. Hesitei um segundo. Sabia que ela não toleraria outra onda de desconfiança.

- Não nos leve a mal, rapaz – ela disse em um tom menos áspero. – Modéstia à parte, para nós, nenhum sonho é impossível, mas ouça bem e entenda: nem todos são sonhos de verdade. Sonhos não são apenas desejos, apesar de irmãos muito próximos. É comum os candidatos se confundirem.

Olhei para os lados.

- Posso chegar perto de você?

- Claro.

Desajeitado, contornei a mesa. Envolvi a boca com a mão em concha para sussurrar no seu ouvido. Depois que ela assentiu, eu fiz um pedido:

- Poderia deixar isso entre nós, Srta. Carbot. Quero dizer, não precisa anotar isso na sua folha, precisa?

- Sinto muito. Já está anotado. Mesmo se eu não quisesse, tudo já estaria escrito. Não se preocupe. Ninguém vai saber se você não quiser.

Pensei que estivesse conseguindo alguma intimidade ali, mas estava enganado. Depois que falei, seus olhos azuis faiscaram como aviso para que eu me afastasse. Retornei ao assento reclinando a cadeira. Senti o estômago roncando de fome.

A lentidão com que preenchia fosse-lá-o-que-fosse-aquilo me lembrava aqueles funcionários preguiçosos de cartório. Após a última assinatura, Srta. Carbot carimbou uma via rosa.

- Pronto. Agora vá ao almoxarifado e pegue seu equipamento de segurança. Ah! E faça o favor de comer alguma coisa, ok? Sinto o seu bafo daqui. E quanto ao pagamento: é semanal. Em ouro. Tudo vai depender de como você vai se sair. Boa sorte.

“Boa sorte.”

Agarrei aquelas palavras com toda a minha força e fui em busca do almoxarifado naquele labirinto.

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