sábado, 24 de junho de 2017

Adaptação de um diálogo 18/06/2017;

Sim. Desde a primeira vez, quando o conheci. Era um lumieiro sinuoso jogando suas luzes tortas no mar mundano. Sinto isso. Tem a ver com procurarmos e acharmos, ao mesmo tempo que uma luminosidade continua vacilante. Era isso que ele sempre dizia.

Naquele tempo me sentia feito animal com comida pendurada num galho sobre cabeça. Estava bem ali, mas nunca conseguia devorar. Desde então, continuo a andar sem consciência do que acontece de fato. Apenas seguindo o rastro torto de luz que ele deixou.

Quanto a sua partida, acho que é inevitável a separação. Separar parte de um mundo fatalmente maravilhoso e terrível. Nada mais correto do que errar como uma chama vacilante.

Não se poder negar que ainda estamos vivos. Não é apenas um lapso do sonho de um rei vermelho. Penso nisso quase o tempo todo: a forma como estamos renascendo a cada instante através de pequenos brotos que a princípio parecem sementes mortas de memória, insignificantes lembranças pelo caminho. As sementes estalam em silêncio no escuro e, de repente, retomam a direção do vento e do Sol que ele acendeu.

Não tive um último dia. No dia seguinte ele já tinha seguido seu caminho. Mas o último livro que ele leu eu sei. Confissões de uma Máscara. Eu li O Pavilhão Dourado. As últimas palavras que trocamos sempre me parecem uma fechadura entre o mundo é nós, Finalmente, a chave feita de histórias atravessa a fenda como extensão de nossa própria alma. Posso sentir por completo.

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