sábado, 13 de maio de 2017

Uma fenda no quadro

Obs.: Texto originalmente publicado no blog Papel Papel.



Desde a infância eu não me interessava mais por quebra-cabeças. Contudo, minha apatia durou até quatro anos atrás. 


Certo dia, minha mãe trouxe uma bolsa grande com um monte de caixas e entrou pela porta dizendo: “Olha o que eu trouxe, Jonatas”. Ela foi para sala e pôs a maior das caixas que tinha uma bela e colorida ilustração sobre a mesa. Não me importei a princípio. Ao decorrer da semana, comecei a observá-la. Tardes inteiras debruçada sobre os cotovelos, ajeitando os óculos sobre o nariz para não cair no montinho de peças. Seu gesto me parecia esconder algo que me chamava a atenção, como acontece com a luz de vela que atrai a curiosidade das mariposas.


Duzentas, quinhentas, mil, quantos fossem os números do desafio, ela saciava um apetite pelo jogo. Insistia, e eu sempre procurava saber se ela estava lá, esforçando o olhar através das lentes, até, por fim, a imagem se formar. Depois de terminado o jogo (que durava até semanas), emoldurava e presenteava alguém com o quadro. E logo começava a montar outro e outro, como se montando pedaços de um destino sem fim, sem se importar com o que passou. Apenas seguindo adiante como o velho mundo.


Certa vez ela montou um quadro que não gostei muito. Não sei explicar exatamente por que, mas criei um pouco de antipatia pelo desenho. Achava-o desajeitado, imagino agora. Mas nunca cheguei a sentir aversão. Só o considerava medíocre comparado aos quebra-cabeças que ela me deu de aniversário (uma suntuosa construção europeia do século XVII-XVIII). O quadro desajeitado não significava muita coisa ali, pendurado na parede da sala e me encarando com aquele monte de árvores com folhas vermelhas, como se estivessem condenadas a queimar eternamente em chamas secas. Era só isso que eu conseguia enxergar. Árvores vermelhas e um casarão desengonçado projetando uma ponte sobre um rio. Nada mais.




Seja qual for o motivo, ignorei a presença vermelha por alguns anos. Até que, em uma tarde que me lembro bem, deitado desinteressadamente no sofá, percebi que faltava uma peça. Levantei e toquei o vidro embaçado, bem na quarta peça de cima para baixo, a décima primeira da direita para a esquerda. Passeei os olhos ao redor do buraco e, na falta daquela peça, notei que havia montanhas. Muitas montanhas ao fundo. Uma bela cordilheira que sumia como fuligem azulada, confundindo-se com o céu anil, imitando as cores e formas do ventre das nuvens logo acima. Senti meu olhar cair como num precipício. Estava tudo tão distante, mas, de algum modo, céu e montanhas se ajustavam de forma tão íntima.


Dali por diante percebi outros detalhes. Um casal de patos na parte superior do rio, ao lado do moinho; um homem vestindo um chapéu, calças e casaco azuis montado em um cavalo azulado com manchas brancas; cervos se aproximando de um casebre de pedra escondido no bosque. Cada fração nova se revelava pouco a pouco, conforme sua própria vontade.


Entre todas as coisas que percebi no quadro, a mais curiosa a se destacar foi que não havia somente árvores de folhas vermelhas, mas algumas bem claras, entre dourado e branco, e outras amareladas num quase tom verde. Os pinheiros são os únicos que mantêm suas folhas absolutamente verdes e vivas, apontando como lanças, como se almejassem espetar o firmamento. Enfim. Posso com absoluta certeza que o perfeito retrato de outono está pendurado bem no meio da parede de minha sala, me observando. O longo e suave Outono que parece durar até agora.




Não ouso afirmar que algum dia eu vá gostar de montar quebra-cabeças como minha mãe. A coisa mais próxima a isso é minha sede por ajustar as palavras até formar uma história. Mas fico satisfeito ter aprendido com ela a observar a beleza sutil de algo que primeiramente não apreciei. Talvez esse seja o segredo para muitas coisas que perdemos e não percebemos. Algo que esteve debaixo do nariz o tempo todo e só notamos depois de sentir falta de uma peça. Não sei. Sei apenas que daqui por diante evitarei desprezar quebra-cabeças, especialmente se neles eu encontrar peças faltando, como fechaduras abertas com segredos do outro lado, - igual ao que minha mãe deixou para mim.



P. S.: A ilustração do quebra-cabeça a que me refiro é obra da premiada artista americana Kathy Jakobsen. Para quem desejar conhecer mais obras visite: http://www.kathyjakobsen.com/

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