quinta-feira, 11 de maio de 2017

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 2)



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O motorista pôs a mão no meu ombro e fez questão de abrir a porta.

- Agora é com você, amigo. É só entrar e esperar. Srta. Carbot é o nome. Ela vai te perguntar um monte de coisas estranhas e vai tentar te botar medo. Ignore. Diga que você vai ser o novo ajudante do carro Noel RRT-224o, ok?

Consenti, abaixando a cabeça, e desci do carro.

- Eu vou carregar nossas tralhas e te encontro logo mais.

- Ok – respondi sem jeito.

- Pode entrar sem bater.

Confesso que só naquele instante percebi o quanto poderia ser estúpido ter entrado naquele carro e chegado até ali. Ninguém sabia para onde eu havia ido, nem os poucos amigos que eu tinha. Não deixei ao menos um bilhete avisando aos meus pais. Entretanto, um formigamento começava a crescer em meu estômago. Curioso, pus a mão na maçaneta. Pela fresta da pesada porta ouvi o som organizado de máquinas de escrever e motores e tilintar de sinetes, como se tocassem uma só música. As dobradiças rangeram parecendo algo vivo.

Então, como se o destino me pregasse uma peça pela segunda vez, não foram as inúmeras mesas desordenadas com máquinas de escrever ou os pássaros empalhados usando óculos de piloto sobre as estantes dos armários que primeiro vi; nem foram pessoas baixas demais penduradas nas escadas estreitas apoiadas em torres de arquivos que deviam estar a dez metros do chão, não notei que todas olhavam ao mesmo tempo para mim. Não. Não percebi nenhuma daquelas esteiras com pacotes com tamanho que iam de extra-grandes-hipopótamos a menores que dedos mindinhos, subindo e descendo, de um lado para outro sem parar; nem foram os pássaros voando de uma lâmpada a outra pendurada em lustres coloridos pendurados por finas correntes no teto, como se fossem rapazes mensageiros, entrando em saindo de um complexo de calhas douradas que perpassavam todas as paredes ao teto oval. 

A princípio, só percebi uma coisa. 

Ela tinha o cabelo incomodamente colorido, mas não achei que fosse possível ser a mesma garota. As cores tinham mudado. 

Todavia, estava enganado. 

Usava uma saia bastante curta e inadequada para aquele ambiente, e vestia uma camisa roxa de listras pretas e um avental verde, provavelmente uniforme da companhia. Reconheci pelo jeito que se movia entre as escrivaninhas, e de forma alguma era uma anã, apesar de ainda me parecer bastante pequena.

Sim, você está certa em pensar que fui idiota o suficiente para sentir aquele mesmo impulso estúpido de segui-la, como fiz na estação. Meti a mão no bolso para pegar o trevo, mas antes que conseguisse mover um passo, um cara alto se pôs na frente.

- Boa tarde, senhor... – pelo uniforme que vestia, era o segurança.

- Oh, sim – respondi, estabanado, tentando ver pelos lados de seu corpo. – Srta. Carbot. Carro Noel KNM-224.

- Não estou entendendo, senhor... – insistiu, acompanhando o meu movimento e impedindo que olhasse. – Poderia me dar mais informações?

Quando finalmente desisti de procurar a moça do trevo de quatro folhas, notei a tarjeta de identificação.

“Trajano?” 

Sabia que conhecia de algum lugar. Ele me encarou nos olhos. Era a mesma fisionomia. Queixo bruto e olheiras sorridentes. O mesmo segurança que havia me dado a folha na plataforma da estação.

- Você está se sentindo bem, garoto? – disse.

Juro que tentei, mas não consegui mover um músculo da face sequer.

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