quinta-feira, 11 de maio de 2017

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 1)


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O céu continuou escuro até chegarmos a uma alta construção de tijolos desgastados . A primeira coisa que me chamou a atenção foram suas duas chaminés gigantescas cobertas de limo que sopravam gordas porções de fumaça. Em poucos instantes, as nuvens se abriam e os primeiros raios do sol iluminaram um complexo industrial tão antigo que parecia ter sido feito a partir das ruínas de um castelo. Estava todo coberto por uma camada densa raízes secas e trepadeiras escuras. Ao longe, o prédio parecia desativado, mas, ao nos aproximarmos com o carro, reparei nos vultos passando rapidamente pelas janelas longas.

As árvores à beira da estradinha eram assustadoras. Pareciam velhas bruxas petrificadas por alguma maldição à espera do fim dos tempos. Os galhos estavam tão encurvados e espaçosos que, em certos trechos, forçava o carro trafegar na contramão. Se estivesse a pé, teria de caminhar pela sarjeta abarrotada de folhas secas. Na frente de cada árvore havia estatuetas ovais bem esquisitas na cor verde. Diversas cabeças de aves sorridentes de órbitas vazias como se dessem boas vindas.

- Não encare muito tempo – disse o motorista, - elas podem se irritar.

Estremeci e virei a cabeça para frente. Ele notou meu nervosismo e riu.

- É uma brincadeira. Ninguém pode fazer nada com você aqui.

Após alguns minutos contornando o muro, notei um velhinho meio corcunda que aparava o gramado de um extenso jardim. Com dificuldade, estalou o pescoço em nossa direção e desligou o cortador. Acenou ao motorista como se fossem amigos.

- Bom dia, Noel! – disse o senhor tirando enormes óculos de proteção e limpando a grama da testa. - Pensei que não ia mais voltar.

O motorista parou o carro rente ao meio fio.

- Bom dia, Sr. Crapo. Eu tive sorte dessa vez. - Deu-me uma cotovelada, complementando, - este é o ajudante novo.

Acenei.

- Oh, sim. Soube o que aconteceu com o outro. Como era mesmo o nome dele?... Não que me importe com detalhes. Mas foi terrível, terrível, sim. Espero que esse aí também não se esqueça da sorte em casa.

- É. Foi triste - fungou. - Sabe se as guias já estão prontas?

Sr. Crapo coçou os pelos na orelha e balançou o queixo.

- Nada. O escritório abriu tarde hoje, e parece que tem um caçador rondando por aí...

- Eles estão atrasados de novo, não é?

- Bem... é o que os rapazes da triagem estão dizendo.

- Essa bagunça ainda vai acabar falindo um dia.

O velho abriu a boca mole para gargalhar, mas não saiu nada mais que um pigarro viscoso do fundo da garganta.

- Tem razão, tem razão. E tenhamos certeza, rapaz: esse dia será o fim do mundo!

O motorista não gostou da piada.

- Cuidado com o que fala, velho.

Sr. Crapo bateu duas vezes nos lábios enrugados num sorriso.

- Oh. Desculpe. Às vezes esqueço que você é supersticioso.

- Não sou supersticioso. Mas não tem motivo pra ficar me agourando. – Virou para mim. – O que foi? Está rindo de quê, nanico?

- De nada, - respondi, contraindo as bochechas.

Engatou a marcha e balançou a cabeça tentando demonstrar que não se importava.

- Tenha um bom trabalho, velho. E cuidado para não cortar um dedo outra vez.

O rosto de Crapo ficou vermelho como o de um bêbado envergonhado. Ligou o motor do cortador no máximo, espalmou as mãos para nós e disse, com a voz mais alta do que o estrondo:

- Não se preocupe, moleque! Ainda me restam sete dedos. Sete é meu número! De sete não vai passar!

A van se afastou pela estrada de pedras contornando mais uma vida inteira de muro. Quando já imaginava que aquela viagem nunca teria fim, chegamos a um portão. As grades eram bastante próximas, quase não dando para ver o que havia do outro lado. Não era feio, mas tão alto e fosco que me deu a impressão de estar diante da entrada de um hospício.

- Esse velho é mesmo maluco – balbuciou. – Sujeito muito agradável, não acha?

- Ele é engraçado.

O carro ficou estacionado um longo tempo. O motorista buzinou diversas vezes, até que as grades rangerem e se abrirem. Logo em frente, se erguiam prédios de tijolos desgastados, cujos topos pareciam que em breve iriam cair. Eram bem mais altos do que vistos de longe. 

O mais curioso percebi em seguida: um monte de aves nebulosas empoleiradas nas chaminés. Elas tinham um comportamento estranho. Aguardavam a vez para saltar em direção ao edifício maior, formando uma espécie de fileira de espera. Faziam isso de maneira ordenada, como se fossem adestradas (ou inteligentes os suficiente para se organizar). Um pássaro gordo tentou passar à frente atropelando os menores, que responderam bicando violentamente e empurrando-o de volta para seu lugar. Elas continuaram ordinariamente até entrar na janela circular bem ao topo. Também possuíam algo como um cordão pendurado em seus pescoços (e algumas não pareciam ter só duas asas, dois olhos ou apenas duas patas). Tive a impressão de ver uma usando óculos de mergulho. Limpei a sujeira dos meus óculos duas vezes, mas estava muito longe e, ao colocar os óculos de volta no rosto, a criaturinha já havia entrado.



- São espertas – disse Noel, tirando algo de entre os dentes com a unha. – Se não tomar cuidado te arrancam um olho fora.

Dessa vez não parecia uma piada.

Um homem em uma cabine ao lado da entrada puxava preguiçosamente a alavanca para fechar o portão atrás de nós. Meu amigo o encarou irritado, mas foi em vão. O sujeito tornou a seu jornal coçando os caroços nos lábios sem nos dar atenção.

- Esse idiota às vezes finge que está dormindo – Noel disse alto.

Os fundos da fábrica era ainda mais curioso. Montes de carcaças e peças de trem empilhados ocupavam um espaço maior do que um campo de futebol. Uma crosta de limo verde brilhante cobria cada porção de metal enferrujado. Aquilo me deu arrepios, pois me lembrou por um breve instante do sonho da outra noite: o trem que vinha em direção à janela do meu apartamento.

Evitei olhar, temendo que algo se mexesse no meio das ferragens.

O veículo percorreu um extenso pátio cheio de rachaduras até chegarmos a uma espécie de galpão em anexo a um silo largo como uma baleia. Ele ficava exatamente na metade do prédio principal do complexo. Por sinal, tinha telhas alaranjadas muito bonitas, mas, bastante avariadas pela chuva e vento. Ali, o som de máquinas martelando e perfurando era mais nítido, como se estivéssemos próximos do coração de um gigante de ferro. Fiquei curioso, pois não avistara ninguém se movimentando pelas janelas e o ruído, quase musical, não parecia vir de lugar algum. 

Estacionamos próximo a uma porta. Sobre ela havia uma placa de cobre quase tão vermelho quanto um leprechaum, onde estava escrito:

Escritório de Relações Ulteriores e Departamento Impessoal
Quarta Folha S.A.
(Limpe os pés antes de entrar)


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