domingo, 12 de novembro de 2017

A descoberta do pássaro no meio do caminho

"Ontem, estava voltando para casa quando encontrei o pássaro no meio da rua. Petrificado. Quando passei não se moveu. Como se fosse um animal empalhado. Pensei que estivesse morto. Um carro quase o atropelou. Eu voltei e tentei empurrar para a calçada com o pé. Mas não se movia. Permanecia estático. Fiquei um tempo olhando para ele. Parecia desconectado do corpo. De repente, sem piscar, começou a bater as asas. Demorou muito tempo a me perceber. Quando peguei se agitou. E parou. Senti seu corpo como um coração batendo entre meus dedos. Respirava rápido. Ele voou e ficou empoleirado na grade, e por um tempo olhava fixo o nada. Acho que se ele não fosse embora cinco minutos depois eu estaria lá até agora, tentando descobrir o que se passava em sua cabeça. Pelo olhar vazio de pássaro morto deve ter descoberto a verdade. "

sábado, 16 de setembro de 2017

Do marceneiro

Uma noite dessas meus pensamentos se aninhavam no teto feito pássaros. De repente, aos pássaros um detalhe na minha cama chamou a atenção. A cabeceira, nunca havia reparado: era ornada à orla com folhas de acanto esculpidas na madeira. Aquelas mesmas folhas de capitéis corintos idealizadas por Calímaco que coroavam colunas gregas, e que os romanos tantos apreciavam. Provavelmente o marceneiro que as esculpiu nunca ouvira falar no mito dos acantos que nasceram na borda do cesto deixado acidentalmente sobre túmulo de uma virgem.

Não demorou para os pássaros voarem pela janela e eu me dar conta de que nunca dominaria a arte de esculpir uma folha de acanto em madeira como ele.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Histórias de um entregador de sonhos - 8 'Sra. Carbot'

O ruído de máquinas de escrever e pássaros pulando de um lado a outro parou por um segundo. Depois de me analisarem por uns instantes, retornaram aos afazeres se movendo de um modo quase mecânico. Você pode não acreditar, mas, ao ouvir o estalo da fechadura atrás de mim, senti cada osso e órgão dentro de mim, como se o mundo todo tornasse a girar sob meus pés.

- É por ali, garoto.

O segurança corpulento me empurrou meio sem jeito. Enquanto era conduzido entre as inúmeras escrivaninhas, contornava as imensas pilhas de envelopes em escaninhos multiplamente compartimentados. Eu me sentia passeando nos corredores de uma colmeia de vespas, prestes a de ter o olho perfurado se me virasse para alguma daquelas pessoas esquisitas.

- Quer um pouco de água, rapaz? Você parece tonto.

- Foram muitas voltas.

- Sim. Não é um bom lugar para se perder.

A mão do segurança pesou gentilmente em meu ombro na tentativa de me acalmar. Aproveitei para fazer uma pergunta:

- O que eles estão fazendo?

- Não sei bem. Sra. Carbot diz que aqui é onde tudo se mantém funcionando.

Depois da resposta, que considerei evasiva, o segurança assoviou alegremente enquanto continuava a me conduzir em círculos a lugar algum. Talvez aquilo servisse para que eu não fosse capaz de voltar pelo mesmo caminho. Era certo que me perderia se ele resolvesse correr e sumir em algum beco à meia luz. Eu me amaldiçoei mil vezes por ter acordado cedo, por dar ouvidos àquela conversa de pagamento em ouro.

“Seu idiota”, resmungava sem abrir a boca.

As minhas pernas já estavam pesadas quando contornamos a última escrivaninha separada por divisórias. A única entrada naquela parede alta e extensa era uma porta cuja janelinha escura não transparecia nada do outro lado. Ele bateu com os nós dos dedos na superfície branca sem tirar os olhos de mim. Ouvi o som de cabo de aço esticado de cima, girando. Parecia uma roldana dentro de um fosso. Depois de alguns segundos, as dobradiças de uma velha porta pantográfica rangeram. O barulho me fez sentir nervoso na raiz dos dentes.

Ele abriu a porta sem cerimônias.

- A partir daqui você deve ir sozinho. É Só seguir até o final do corredor. Ah. E cuidado com a mão – avisou num sorriso franco. - Já vi alguns sujeitos perderem o dedo nessa porta. Sra. Carbot fica chateada quando isso acontece. Não temos seguro de saúde, você sabe.

- Obrigado, Sr. Trajano – agradeci tentando expressar sinceridade.

- Disponha! – me empurrou, animado, para dentro e fechou a porta.

Fiquei encolhido num canto do elevador e apertei o único botão no meio do painel dourado. Conforme subia, meu estômago pesava devido à alta velocidade. As luzes trêmulas ameaçavam a todo instante apagar. Pelo ruído dos cabos, deviam estar enferrujados e não eram trocados há séculos.

Além das maçanetas, portas, canos e todo tipo de utensílio possuir a estranha marca do trevo seguido do numeral quarto ordinário. Havia uma daquelas placas metálicas sobre o botão e no lustre que envolvia a lâmpada. Li os avisos de segurança com a mesma marca. Um trecho me chamou a atenção:

EM CASO DE EMERGÊNCIA, NÃO FECHAR OS OLHOS.

Quando o elevador parou, esperei a pantográfica mutiladora de dedos se abrir sozinha.

Não havia nada além de um corredor ladeado por portas mais diversas que você pode imaginar. A princípio, achei engraçado. Conforme caminhava sobre um extenso tapete verde felpudo , eu me sentia como Charlie na Fábrica de Chocolate. Todas aquelas portas altas, baixas, redondas, retangulares, portas de papel e de cobre. Algumas pareciam feitas de marfim com acabamento de couro, outras eram escamosas e brilhantes. Poderia dizer para você que estavam vivas e respirando, a espera de algum intruso para devorar.



Apertei os passos e abracei meu próprio corpo sem olhar para os lados. O pensamento aterrorizante de que encontraria uma porta que possuísse olhos, talvez dentes em uma grande boca fez minha pele se arrepiar. Pensando bem agora, acho que foi um exagero meu. Não havia nada de ameaçador, nem mesmo um ruído.

Não estava nem um pouco tranqüilo quando atingi a última porta. Uma placa de latão indicava que era o lugar certo.

SRTA. CARBOT – RH 

Estava gravado em letras grandes.

Girei a maçaneta e meti timidamente a cabeça pela fresta.

Não conseguia ver com clareza a parte de cima dos arquivos e armários espremidos na sala em meio à névoa. Apesar de ser um cubículo com pouco mais de quatro metros quadrados, o teto era alto, mais alto do que o topo de uma velha catedral. Senti um pouco de vertigem e esfreguei os olhos. Tive a impressão de não conseguir ao menos enxergar as vigas de sustentação lá em cima. Apertei os olhos para ver melhor. Uma sombra cruzou o espaço.

“Aves?”

Pareciam aves sobrevoando ao longe. As retinas ardiam. Depois de alguns segundo mirando diretamente para o alto, tive a impressão mais estranha da minha vida, a impressão de que, se olhasse por mais tempo, meus pés descolariam do chão e, em seguida, eu cairia para cima, me perdendo naquela estatura descomunal. Imediatamente baixei os olhos observando as rachaduras entre os tijolos na parede. Meu olhar se fixou a uns dez metros do chão, em uma espécie de janela. Era daquelas passagens de luz bastante comuns sobre a porta de entrada de casas dos bairros mais antigos. Não dava para saber a altura com exatidão, mas era por ali que vinha a maior parte da luminosidade. Do outro lado daquela abertura parecia ainda ser tarde da noite, ou pouco antes de amanhecer, talvez os dois. Uma brisa suave empurrava a névoa para dentro em espirais. Certamente era um lugar bem agradável, pensei.

De repente, uma voz ressecada chamou minha atenção para uma sombra em meio à névoa esverdeada.

- Uhm. Uhrrum. Bom dia.

O ventilador no canto da sala começou a girar. A fumaça vagarosamente se dissipou. Havia uma pequena mulher concentrada em um amontoado de documentos. Aquele rosto inexpressivo poderia ser confundido com uma geladeira usada. Sem tirar os olhos da papelada, ela se apressou em apagar o cigarro no cinzeiro e me chamou num aceno. Dei meio passo, quando, de repente, algo voou por cima de sua cabeça e soltou um punhado de envelopes pardos de onde saltaram montes de folhas. A coisa se espatifou fora do escaninho como um castelo de cartas. Nada se moveu além dos fios de cabelo da mulher.

- Ignore essa engraçadinha – ela apontou para a cadeira com uma caneta. – Elas fazem isso de propósito, bando preguiçosos. Fique à vontade.

- Obrigado.

Antes que pudesse me acomodar na cadeira, a mulher lançou o olhar sobre o aro fino e redondo dos óculos e perguntou:

- Com que freqüência o senhor tem pesadelos?

- O quê?

- Sonhos ruins. Quantas vezes você sonhou coisas ruins na última semana?

Era uma pergunta que uma psiquiatra ou maluco fariam.

- A senhora não quer saber minha identidade ou algo do tipo?

A mulher levantou a cabeça ajeitando os óculos na ponta do nariz e permaneceu calada. É claro que meu sorriso condescendente não alterou um milímetro da sua expressão de porta trancada. O silêncio me deixou ainda mais nervoso.

Encarei-a:

- Bem. Há algumas noites. Acho que tive um sonho ruim.

Os dedos se cruzaram sobre os envelopes como se eu não fosse mais tão desinteressante assim.

- E como foi?

- Antes de tudo, se não for muito abuso de minha parte, sabe, você poderia me explicar o que vocês fazem exatamente aqui?

- Sr. Noel já deve ter explicado que pagamos muito bem, não?

- Ele disse. Mas não me disse exatamente o que acontecia, - apertei os joelhos. - E o outro cara, como morreu?

- Não explicou que era uma empresa de entregas?

- Claro, claro. Isso eu sei. Não entendi muito bem que tipo de entrega... com todo respeito, dona, a explicação foi muito vaga. Eu preciso muito saber o que vou fazer aqui.

- Como quiser, garoto. Se não pode trabalhar em nossa empresa de entregas, pode voltar para casa.

Ela tornou a rabiscar, avaliar e carimbar os papeis como se eu fosse menos que a fumaça do cigarro que havia acabado de acender.

“Droga” praguejei mentalmente.

A lembrança de meus pais e da TV acenderam feito lâmpadas de Natal. Eles iriam me matar. Faltava apenas um dia. Talvez me chutassem para fora de casa por causa da TV. E Judas. Não tinha nem um pouco de comida para meu cachorro. Não tinha comida nem para mim. Mesmo que não me expulsassem eu iria acabar morrendo de fome.

- Vocês pagam diariamente? – perguntei.

Nada. Nem uma ranhura de expressão naquele rosto de porta de geladeira. Eu me movi no assento até o silêncio perturbador da mulher me vencer pela segunda vez.

- Trem – bufei. – É meio estúpido, mas tive um pesadelo com um trem voando em direção ao meu quarto esses dias. Um monte de luzes verdes. Meu cachorro ficou louco e – pensei duas mil vezes antes acrescentar algo sobre garota-do-trevo-de-quatro-folhas – e foi horrível. Só isso.

A menção da palavra trem pareceu atingi a dona ao ponto de fazer com subitamente largar a caneta na mesa.

- Não é verdade – disse. – Você deve estar enganado. Isso não me pareceu um pesadelo. Mas podemos acabar com essa dúvida num instante. Espere um pouco.

Da gaveta, Srta. Carbot tirou uma máquina estranha toda empoeirada. Era muito semelhante a um telégrafo antigo que eu já tinha visto numa enciclopédia quando criança, só que aquele tinha um pequeno globo transparente com raios estáticos dentro.

Ela pôs bem no centro da mesa e ordenou:

- Vamos, venha cá. Aperte isso.

Pouco aproximei minha mão direita do botão e o globo se encheu de luminosidade esverdeada, igual a uma pedra preciosa. Os raios dançaram ao redor do centro produzindo um barulho de rachadura. Eu não tive tempo de encostar, pois Srta. Carbot pulou sobre a mesa derrubando as folhas e segurou meu pulso.

- Tudo bem! Afaste sua mão.

Vagarosamente, pus os dedos suados no bolso.  Ela continuou apreensiva.

- Não é possível – murmurou consigo mesma. – Você não parece o tipo, bem, não é um sonhador. Vejamos... – observou mais um instante a esfera antes de guardar o aparelho de volta na gaveta. - Ao menos não parece ser um mal sujeito, um tipo maluco que persegue as pessoas por aí, não é?

Esboçou mal o primeiro que foi também o último sorriso.

- Enfim, isso também não interessa. Terá que servir.

Tirou algumas folhas de diversas cores e ajeitou uma sobre a outra com carbono entre elas.

- Preciso só de mais uma coisa, sonhador. Pense muito bem no que você vai responder, porque seu pagamento, ou melhor, o resto de sua vida dependerá disso.

“Em que inferno estou me metendo” pensei.

- Qual é o seu sonho?

Aquela pergunta acertou meu rosto como um chicote. Hesitei um segundo. Sabia que ela não toleraria outra onda de desconfiança.

- Não nos leve a mal, rapaz – ela disse em um tom menos áspero. – Modéstia à parte, para nós, nenhum sonho é impossível, mas ouça bem e entenda: nem todos são sonhos de verdade. Sonhos não são apenas desejos, apesar de irmãos muito próximos. É comum os candidatos se confundirem.

Olhei para os lados.

- Posso chegar perto de você?

- Claro.

Desajeitado, contornei a mesa. Envolvi a boca com a mão em concha para sussurrar no seu ouvido. Depois que ela assentiu, eu fiz um pedido:

- Poderia deixar isso entre nós, Srta. Carbot. Quero dizer, não precisa anotar isso na sua folha, precisa?

- Sinto muito. Já está anotado. Mesmo se eu não quisesse, tudo já estaria escrito. Não se preocupe. Ninguém vai saber se você não quiser.

Pensei que estivesse conseguindo alguma intimidade ali, mas estava enganado. Depois que falei, seus olhos azuis faiscaram como aviso para que eu me afastasse. Retornei ao assento reclinando a cadeira. Senti o estômago roncando de fome.

A lentidão com que preenchia fosse-lá-o-que-fosse-aquilo me lembrava aqueles funcionários preguiçosos de cartório. Após a última assinatura, Srta. Carbot carimbou uma via rosa.

- Pronto. Agora vá ao almoxarifado e pegue seu equipamento de segurança. Ah! E faça o favor de comer alguma coisa, ok? Sinto o seu bafo daqui. E quanto ao pagamento: é semanal. Em ouro. Tudo vai depender de como você vai se sair. Boa sorte.

“Boa sorte.”

Agarrei aquelas palavras com toda a minha força e fui em busca do almoxarifado naquele labirinto.

Interlúdio de Histórias de um Entregador de Sonhos

Primeiro. Depois de tanto tempo, não espere alguma continuidade necessariamente triste ou feliz. Na verdade, peço que não espere fim algum. Apenas conto a história conforme ela tem acontecido. Peço que deixe qualquer esperança de lado. Não vejo nem sombra de um ponto final no horizonte próximo.

Segundo. Pense nesta história como metáfora de dois cometas. Imagine que lá no alto há dois cometas eternamente fadados a se chocar e a se ferir. Algumas pessoas, que já se sentiram como um cometa descontrolado sabem como é. Bem... não sei se isso é necessariamente ruim, mas não posso considerar tal impacto devastador algo trágico ao ponto de não ser maravilhoso na perspectiva de alguém como você, que chegou até aqui para me ouvir. Tendo a pensar que não seria a mesma coisa se Píramo e Tisbe não tivessem morrido de maneira tão terrível. Do contrário, o coração dos deuses jamais teriam se comovido. As amoras nunca seriam avermelhadas. Enfim. Creio que ainda more no seu coração sensibilidade suficiente para me entender.

Ademais. Sou grato, entre fraturas de espírito que nunca haverão de se encontrar, e grato por me mostrar a luz sob a porta. Eu não passo de mais um cara perdido no escuro deste sonho; - nos encontramos no capítulo oito. Ou nunca mais, como dois gatos perdidos no deserto de cimento e luzes. Pff...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Última vez

- Vi belas coisas hoje. Uma criança tentando desvendar o sono no colo de outra com a ponta dos dedos. Lá na frente. Um rapaz de pé, beijando repentinamente a testa de sua mãe sentada. Depois, vi que estava enganado. Ela se virou e desceu do ônibus. Era sua mulher grávida. Eu ri. Na calçada, um homem enorme carregando um cachorro minúsculo e inofensivo debaixo do braço com uma focinheira. Passou por outro, sujo e magro, tentando acender um montinho de papel amassado com uma caixa de fósforo molhada que encontrara na rua. Atrás, um garoto de casaco com o rosto iluminado pela tela de um fliperama no meio do nada.

Dos sentidos

Respira o ar que sai da boca. O próprio perfume lhe basta. Há ocasiões em que o coração engole o sangue; as mãos e a postura fremem. O poro abre de repente: a pele exala jasmim e enxofre. Os segundos se abatem na impostura das aves aos beirais do prédio. Em favor do instante, ninguém atravessa o corredor. Ninguém passa por nós. Quando mal a boca transborda água. Dentro dela, duas tempestades sucedem ao toque. Não se enxerga sob as dunas de névoa algum continente. Apenas montanha de cinzas. Dois caprinos duelam à beirada da rocha. A ponta dos chifres fere os céus em sua queda. O lábio da concha se abre. Os corredores se incendeiam. Entre dentes, retém sabor de morangos. Fecho os olhos e vejo o sorriso tateando minhas digitais, um vitral colorido no escuro. Agarro-me à rede feita de cabelo ao redor do rosto. Sob as unhas guarda minha pele e meu sangue. A língua lança uma pedra. Estilhaça a janela do santuário.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Anatomia de Julho - Passagem secreta

O Sol se encerra no ventre da noite. Não restam direções, trilhas ou estradas. Apenas o pulso de meu sangue. Abraço o sorriso escorrendo à boca. Escondo meu espírito nos vincos de uma pirâmide. Está submersa no fundo do Atlântico. Meu derradeiro monumento. Então, agora, inevitavelmente agora, meu corpo descansa. Estou por fim em casa, acolhido pelos ângulos permeados por água negra. O dia não nascerá. 




Meu espírito segue o fluxo: como barco em silêncio sobre o Nilo. Singro entre flores brancas. Elas me observam sem desabrochar sua seda. Testemunho o nascimento de meus pais, e dos pais de meus pais, em hieróglifos gravados nas ondas. Sigo o labirinto. As teias me elevam ao topo. Não há círculo que não se rompa num ponto. Até hoje não saberia responder para onde estava indo todo este tempo. Todavia, me habita, hoje, a certeza da origem da primeira semente.  

sábado, 24 de junho de 2017

Adaptação de um diálogo 18/06/2017;

Sim. Desde a primeira vez, quando o conheci. Era um lumieiro sinuoso jogando suas luzes tortas no mar mundano. Sinto isso. Tem a ver com procurarmos e acharmos, ao mesmo tempo que uma luminosidade continua vacilante. Era isso que ele sempre dizia.

Naquele tempo me sentia feito animal com comida pendurada num galho sobre cabeça. Estava bem ali, mas nunca conseguia devorar. Desde então, continuo a andar sem consciência do que acontece de fato. Apenas seguindo o rastro torto de luz que ele deixou.

Quanto a sua partida, acho que é inevitável a separação. Separar parte de um mundo fatalmente maravilhoso e terrível. Nada mais correto do que errar como uma chama vacilante.

Não se poder negar que ainda estamos vivos. Não é apenas um lapso do sonho de um rei vermelho. Penso nisso quase o tempo todo: a forma como estamos renascendo a cada instante através de pequenos brotos que a princípio parecem sementes mortas de memória, insignificantes lembranças pelo caminho. As sementes estalam em silêncio no escuro e, de repente, retomam a direção do vento e do Sol que ele acendeu.

Não tive um último dia. No dia seguinte ele já tinha seguido seu caminho. Mas o último livro que ele leu eu sei. Confissões de uma Máscara. Eu li O Pavilhão Dourado. As últimas palavras que trocamos sempre me parecem uma fechadura entre o mundo é nós, Finalmente, a chave feita de histórias atravessa a fenda como extensão de nossa própria alma. Posso sentir por completo.
Às vezes, quando faço alguma besteira ou penso alguma idiotice, consigo ouvi-lo rir dentro de mim, rindo da minha cara como quando lhe contava minhas desventuras.

- Seu maluco, ele dizia.

Às vezes parece que consigo senti-lo por completo.

É curioso como o fim da vida nos aproxima de maneira tão radical de quem amamos.

sábado, 13 de maio de 2017

Uma fenda no quadro

Obs.: Texto originalmente publicado no blog Papel Papel.



Desde a infância eu não me interessava mais por quebra-cabeças. Contudo, minha apatia durou até quatro anos atrás. 


Certo dia, minha mãe trouxe uma bolsa grande com um monte de caixas e entrou pela porta dizendo: “Olha o que eu trouxe, Jonatas”. Ela foi para sala e pôs a maior das caixas que tinha uma bela e colorida ilustração sobre a mesa. Não me importei a princípio. Ao decorrer da semana, comecei a observá-la. Tardes inteiras debruçada sobre os cotovelos, ajeitando os óculos sobre o nariz para não cair no montinho de peças. Seu gesto me parecia esconder algo que me chamava a atenção, como acontece com a luz de vela que atrai a curiosidade das mariposas.


Duzentas, quinhentas, mil, quantos fossem os números do desafio, ela saciava um apetite pelo jogo. Insistia, e eu sempre procurava saber se ela estava lá, esforçando o olhar através das lentes, até, por fim, a imagem se formar. Depois de terminado o jogo (que durava até semanas), emoldurava e presenteava alguém com o quadro. E logo começava a montar outro e outro, como se montando pedaços de um destino sem fim, sem se importar com o que passou. Apenas seguindo adiante como o velho mundo.


Certa vez ela montou um quadro que não gostei muito. Não sei explicar exatamente por que, mas criei um pouco de antipatia pelo desenho. Achava-o desajeitado, imagino agora. Mas nunca cheguei a sentir aversão. Só o considerava medíocre comparado aos quebra-cabeças que ela me deu de aniversário (uma suntuosa construção europeia do século XVII-XVIII). O quadro desajeitado não significava muita coisa ali, pendurado na parede da sala e me encarando com aquele monte de árvores com folhas vermelhas, como se estivessem condenadas a queimar eternamente em chamas secas. Era só isso que eu conseguia enxergar. Árvores vermelhas e um casarão desengonçado projetando uma ponte sobre um rio. Nada mais.




Seja qual for o motivo, ignorei a presença vermelha por alguns anos. Até que, em uma tarde que me lembro bem, deitado desinteressadamente no sofá, percebi que faltava uma peça. Levantei e toquei o vidro embaçado, bem na quarta peça de cima para baixo, a décima primeira da direita para a esquerda. Passeei os olhos ao redor do buraco e, na falta daquela peça, notei que havia montanhas. Muitas montanhas ao fundo. Uma bela cordilheira que sumia como fuligem azulada, confundindo-se com o céu anil, imitando as cores e formas do ventre das nuvens logo acima. Senti meu olhar cair como num precipício. Estava tudo tão distante, mas, de algum modo, céu e montanhas se ajustavam de forma tão íntima.


Dali por diante percebi outros detalhes. Um casal de patos na parte superior do rio, ao lado do moinho; um homem vestindo um chapéu, calças e casaco azuis montado em um cavalo azulado com manchas brancas; cervos se aproximando de um casebre de pedra escondido no bosque. Cada fração nova se revelava pouco a pouco, conforme sua própria vontade.


Entre todas as coisas que percebi no quadro, a mais curiosa a se destacar foi que não havia somente árvores de folhas vermelhas, mas algumas bem claras, entre dourado e branco, e outras amareladas num quase tom verde. Os pinheiros são os únicos que mantêm suas folhas absolutamente verdes e vivas, apontando como lanças, como se almejassem espetar o firmamento. Enfim. Posso com absoluta certeza que o perfeito retrato de outono está pendurado bem no meio da parede de minha sala, me observando. O longo e suave Outono que parece durar até agora.




Não ouso afirmar que algum dia eu vá gostar de montar quebra-cabeças como minha mãe. A coisa mais próxima a isso é minha sede por ajustar as palavras até formar uma história. Mas fico satisfeito ter aprendido com ela a observar a beleza sutil de algo que primeiramente não apreciei. Talvez esse seja o segredo para muitas coisas que perdemos e não percebemos. Algo que esteve debaixo do nariz o tempo todo e só notamos depois de sentir falta de uma peça. Não sei. Sei apenas que daqui por diante evitarei desprezar quebra-cabeças, especialmente se neles eu encontrar peças faltando, como fechaduras abertas com segredos do outro lado, - igual ao que minha mãe deixou para mim.



P. S.: A ilustração do quebra-cabeça a que me refiro é obra da premiada artista americana Kathy Jakobsen. Para quem desejar conhecer mais obras visite: http://www.kathyjakobsen.com/

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 2)



Leia os capítulos anteriores AQUI

O motorista pôs a mão no meu ombro e fez questão de abrir a porta.

- Agora é com você, amigo. É só entrar e esperar. Srta. Carbot é o nome. Ela vai te perguntar um monte de coisas estranhas e vai tentar te botar medo. Ignore. Diga que você vai ser o novo ajudante do carro Noel RRT-224o, ok?

Consenti, abaixando a cabeça, e desci do carro.

- Eu vou carregar nossas tralhas e te encontro logo mais.

- Ok – respondi sem jeito.

- Pode entrar sem bater.

Confesso que só naquele instante percebi o quanto poderia ser estúpido ter entrado naquele carro e chegado até ali. Ninguém sabia para onde eu havia ido, nem os poucos amigos que eu tinha. Não deixei ao menos um bilhete avisando aos meus pais. Entretanto, um formigamento começava a crescer em meu estômago. Curioso, pus a mão na maçaneta. Pela fresta da pesada porta ouvi o som organizado de máquinas de escrever e motores e tilintar de sinetes, como se tocassem uma só música. As dobradiças rangeram parecendo algo vivo.

Então, como se o destino me pregasse uma peça pela segunda vez, não foram as inúmeras mesas desordenadas com máquinas de escrever ou os pássaros empalhados usando óculos de piloto sobre as estantes dos armários que primeiro vi; nem foram pessoas baixas demais penduradas nas escadas estreitas apoiadas em torres de arquivos que deviam estar a dez metros do chão, não notei que todas olhavam ao mesmo tempo para mim. Não. Não percebi nenhuma daquelas esteiras com pacotes com tamanho que iam de extra-grandes-hipopótamos a menores que dedos mindinhos, subindo e descendo, de um lado para outro sem parar; nem foram os pássaros voando de uma lâmpada a outra pendurada em lustres coloridos pendurados por finas correntes no teto, como se fossem rapazes mensageiros, entrando em saindo de um complexo de calhas douradas que perpassavam todas as paredes ao teto oval. 

A princípio, só percebi uma coisa. 

Ela tinha o cabelo incomodamente colorido, mas não achei que fosse possível ser a mesma garota. As cores tinham mudado. 

Todavia, estava enganado. 

Usava uma saia bastante curta e inadequada para aquele ambiente, e vestia uma camisa roxa de listras pretas e um avental verde, provavelmente uniforme da companhia. Reconheci pelo jeito que se movia entre as escrivaninhas, e de forma alguma era uma anã, apesar de ainda me parecer bastante pequena.

Sim, você está certa em pensar que fui idiota o suficiente para sentir aquele mesmo impulso estúpido de segui-la, como fiz na estação. Meti a mão no bolso para pegar o trevo, mas antes que conseguisse mover um passo, um cara alto se pôs na frente.

- Boa tarde, senhor... – pelo uniforme que vestia, era o segurança.

- Oh, sim – respondi, estabanado, tentando ver pelos lados de seu corpo. – Srta. Carbot. Carro Noel KNM-224.

- Não estou entendendo, senhor... – insistiu, acompanhando o meu movimento e impedindo que olhasse. – Poderia me dar mais informações?

Quando finalmente desisti de procurar a moça do trevo de quatro folhas, notei a tarjeta de identificação.

“Trajano?” 

Sabia que conhecia de algum lugar. Ele me encarou nos olhos. Era a mesma fisionomia. Queixo bruto e olheiras sorridentes. O mesmo segurança que havia me dado a folha na plataforma da estação.

- Você está se sentindo bem, garoto? – disse.

Juro que tentei, mas não consegui mover um músculo da face sequer.

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 1)


Leia os capítulos anteriores AQUI

O céu continuou escuro até chegarmos a uma alta construção de tijolos desgastados . A primeira coisa que me chamou a atenção foram suas duas chaminés gigantescas cobertas de limo que sopravam gordas porções de fumaça. Em poucos instantes, as nuvens se abriam e os primeiros raios do sol iluminaram um complexo industrial tão antigo que parecia ter sido feito a partir das ruínas de um castelo. Estava todo coberto por uma camada densa raízes secas e trepadeiras escuras. Ao longe, o prédio parecia desativado, mas, ao nos aproximarmos com o carro, reparei nos vultos passando rapidamente pelas janelas longas.

As árvores à beira da estradinha eram assustadoras. Pareciam velhas bruxas petrificadas por alguma maldição à espera do fim dos tempos. Os galhos estavam tão encurvados e espaçosos que, em certos trechos, forçava o carro trafegar na contramão. Se estivesse a pé, teria de caminhar pela sarjeta abarrotada de folhas secas. Na frente de cada árvore havia estatuetas ovais bem esquisitas na cor verde. Diversas cabeças de aves sorridentes de órbitas vazias como se dessem boas vindas.

- Não encare muito tempo – disse o motorista, - elas podem se irritar.

Estremeci e virei a cabeça para frente. Ele notou meu nervosismo e riu.

- É uma brincadeira. Ninguém pode fazer nada com você aqui.

Após alguns minutos contornando o muro, notei um velhinho meio corcunda que aparava o gramado de um extenso jardim. Com dificuldade, estalou o pescoço em nossa direção e desligou o cortador. Acenou ao motorista como se fossem amigos.

- Bom dia, Noel! – disse o senhor tirando enormes óculos de proteção e limpando a grama da testa. - Pensei que não ia mais voltar.

O motorista parou o carro rente ao meio fio.

- Bom dia, Sr. Crapo. Eu tive sorte dessa vez. - Deu-me uma cotovelada, complementando, - este é o ajudante novo.

Acenei.

- Oh, sim. Soube o que aconteceu com o outro. Como era mesmo o nome dele?... Não que me importe com detalhes. Mas foi terrível, terrível, sim. Espero que esse aí também não se esqueça da sorte em casa.

- É. Foi triste - fungou. - Sabe se as guias já estão prontas?

Sr. Crapo coçou os pelos na orelha e balançou o queixo.

- Nada. O escritório abriu tarde hoje, e parece que tem um caçador rondando por aí...

- Eles estão atrasados de novo, não é?

- Bem... é o que os rapazes da triagem estão dizendo.

- Essa bagunça ainda vai acabar falindo um dia.

O velho abriu a boca mole para gargalhar, mas não saiu nada mais que um pigarro viscoso do fundo da garganta.

- Tem razão, tem razão. E tenhamos certeza, rapaz: esse dia será o fim do mundo!

O motorista não gostou da piada.

- Cuidado com o que fala, velho.

Sr. Crapo bateu duas vezes nos lábios enrugados num sorriso.

- Oh. Desculpe. Às vezes esqueço que você é supersticioso.

- Não sou supersticioso. Mas não tem motivo pra ficar me agourando. – Virou para mim. – O que foi? Está rindo de quê, nanico?

- De nada, - respondi, contraindo as bochechas.

Engatou a marcha e balançou a cabeça tentando demonstrar que não se importava.

- Tenha um bom trabalho, velho. E cuidado para não cortar um dedo outra vez.

O rosto de Crapo ficou vermelho como o de um bêbado envergonhado. Ligou o motor do cortador no máximo, espalmou as mãos para nós e disse, com a voz mais alta do que o estrondo:

- Não se preocupe, moleque! Ainda me restam sete dedos. Sete é meu número! De sete não vai passar!

A van se afastou pela estrada de pedras contornando mais uma vida inteira de muro. Quando já imaginava que aquela viagem nunca teria fim, chegamos a um portão. As grades eram bastante próximas, quase não dando para ver o que havia do outro lado. Não era feio, mas tão alto e fosco que me deu a impressão de estar diante da entrada de um hospício.

- Esse velho é mesmo maluco – balbuciou. – Sujeito muito agradável, não acha?

- Ele é engraçado.

O carro ficou estacionado um longo tempo. O motorista buzinou diversas vezes, até que as grades rangerem e se abrirem. Logo em frente, se erguiam prédios de tijolos desgastados, cujos topos pareciam que em breve iriam cair. Eram bem mais altos do que vistos de longe. 

O mais curioso percebi em seguida: um monte de aves nebulosas empoleiradas nas chaminés. Elas tinham um comportamento estranho. Aguardavam a vez para saltar em direção ao edifício maior, formando uma espécie de fileira de espera. Faziam isso de maneira ordenada, como se fossem adestradas (ou inteligentes os suficiente para se organizar). Um pássaro gordo tentou passar à frente atropelando os menores, que responderam bicando violentamente e empurrando-o de volta para seu lugar. Elas continuaram ordinariamente até entrar na janela circular bem ao topo. Também possuíam algo como um cordão pendurado em seus pescoços (e algumas não pareciam ter só duas asas, dois olhos ou apenas duas patas). Tive a impressão de ver uma usando óculos de mergulho. Limpei a sujeira dos meus óculos duas vezes, mas estava muito longe e, ao colocar os óculos de volta no rosto, a criaturinha já havia entrado.



- São espertas – disse Noel, tirando algo de entre os dentes com a unha. – Se não tomar cuidado te arrancam um olho fora.

Dessa vez não parecia uma piada.

Um homem em uma cabine ao lado da entrada puxava preguiçosamente a alavanca para fechar o portão atrás de nós. Meu amigo o encarou irritado, mas foi em vão. O sujeito tornou a seu jornal coçando os caroços nos lábios sem nos dar atenção.

- Esse idiota às vezes finge que está dormindo – Noel disse alto.

Os fundos da fábrica era ainda mais curioso. Montes de carcaças e peças de trem empilhados ocupavam um espaço maior do que um campo de futebol. Uma crosta de limo verde brilhante cobria cada porção de metal enferrujado. Aquilo me deu arrepios, pois me lembrou por um breve instante do sonho da outra noite: o trem que vinha em direção à janela do meu apartamento.

Evitei olhar, temendo que algo se mexesse no meio das ferragens.

O veículo percorreu um extenso pátio cheio de rachaduras até chegarmos a uma espécie de galpão em anexo a um silo largo como uma baleia. Ele ficava exatamente na metade do prédio principal do complexo. Por sinal, tinha telhas alaranjadas muito bonitas, mas, bastante avariadas pela chuva e vento. Ali, o som de máquinas martelando e perfurando era mais nítido, como se estivéssemos próximos do coração de um gigante de ferro. Fiquei curioso, pois não avistara ninguém se movimentando pelas janelas e o ruído, quase musical, não parecia vir de lugar algum. 

Estacionamos próximo a uma porta. Sobre ela havia uma placa de cobre quase tão vermelho quanto um leprechaum, onde estava escrito:

Escritório de Relações Ulteriores e Departamento Impessoal
Quarta Folha S.A.
(Limpe os pés antes de entrar)


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