domingo, 18 de dezembro de 2016

Em honra




"Nossa vida é escrita e reescrita continuamente, como um sonho do qual despertamos sem saber que estamos em outro sonho, em camadas sucessivas, sem fim. Apesar de a escolha do caminho de tal campo onírico depender da dimensão de nossa vontade, há certa grandeza indeterminável que nos assalta de surpresa, coisas tão óbvias como a perda de pessoas que amamos.

Desculpe-me se não trato hoje do que de fato deveria falar: o livro que estou lendo, algum museu ou parque que visitei, músicas favoritas e comoventes, filmes interessantes etc. etc., mas não sou capaz de distinguir a arte que aprecio da vida que me atravessa, como sempre me ensinou um grande amigo que perdi esta semana. Segundo ele, nossos sonhos estão em um contínuo crescimento, uma ave que sobe infinitamente por um céu de um azul que nunca se acaba, ou um peixe que submerge e submerge sem nunca conhecer os limites da escuridão do mar. “Jonatas,” ele repetia. “O sonho sempre aumenta, ele sempre aumenta”. Confesso que nunca compreendi bem o significado daquilo. Quando me encarava com aqueles olhos arregalados da extensão do horizonte e sorriso de uma criança que acabou de descobrir o motivo de o céu ser azul, eu apenas concordava. Sempre me impressionava com a forma de meu amigo dizer, talvez por entender que ele também se impressionava com a minha própria forma de dizer as palavras. “Jonatas”, repetia depois de dar um tapa nas minhas costas. “Você é muito maluco”, e ria um riso que passava pouco do seu interior, como se ecoasse água em uma caverna sem fundo.



Acho que meio que percebia algo de familiar no reflexo daqueles grandes olhos de Buda. Talvez fosse isso que ele quisesse dizer. Cada vez que voltávamos para casa naquele largo trecho de estrada que o ônibus percorria, talvez estivéssemos, de certo modo, um crescendo nos olhos do outro. Não sei. Não tenho certeza se era como ele afirmava, se estávamos crescendo, se o sonho estava aumentando, mas atesto que além de dois caras voltando para casa, éramos rastro meio consciente de nossos próprios sonhos.

Sei que conjecturar aqui não é tão pertinente e adequado, mas Gulever me mandaria aos infernos se me abstivesse de me expressar o que desejo por causa de mera formalidade. Então, em honra a ele, digo: creio que seja a inevitabilidade da morte, essa é a palavra, que a inevitabilidade da morte seja outra misteriosa dimensão de grandeza à vida. Ela nos revela a certeza da eternidade, e há uma grande chance de jamais saber o porquê, nem mesmo depois de minha própria morte eu vá saber. Enfim. Tenho certeza de que Gulever gostaria muito de ouvir isso. E de certo modo, ouvir isso de mim mesmo é como se ele ouvisse. Você sabe. É impossível que se vá a parte dele que eu guardei aqui, dentro de mim. Estamos no mesmo sonho. Não há como fugir. É tão repetitivo. Tão verdadeiro. Renova-se e se releva tantas e tantas vezes. Fico feliz em saber de tudo disso."


Publicado originalmente no dia 11 de dezembro de 2016, no blog Papel Papel.