quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 6 ’Estrada da noite'

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O carro percorreu a estrada. Passamos por um parque em meio a vilas e residências mais ou menos antigas. O cimento se desfazia deixando exposto os tijolos vermelhos. Adiante, havia uma praça rodeada por estabelecimentos comercias e uma estátua em homenagem a uma mulher e seu filho no centro protegidos por um cercado de madeira. Nunca prestei a atenção naquele lugar. Acharia bonito se não estivesse paralisado e pensando sobre o que havia acontecido com o ajudante anterior. O motorista parecia se divertir.

- Oh, não se assuste, amigo, - comentou, manejando o volante com os cotovelos e terminando o último pedaço de sanduíche. - Se tudo der certo, você nunca mais vai precisar se preocupar com dinheiro.

- Como assim? – perguntei.

- Você vai ver.

Encolhi os ombros e afundei no assento. Comecei a imaginar se o trabalho se tratava de assaltar bancos, ou contrabandear arte e objetos caros de museus. Talvez tráfico de órgãos para exportação. Pensei por tanto tempo se deveria pular do carro em movimento que não percebi a paisagem se tornar diferente de todas as regiões da cidade que tinha frequentado. Provavelmente estávamos na parte de residências médias. As casas eram maiores e mais confortáveis que a maioria dos cubículos de condomínio. Achava o lugar estranho porque fazia tempo que não passava por ali. Desde que era criança, na época que ainda tinha coragem de arriscar longos passeios até o trecho mais esburacada da rodovia. As pessoas evitavam passar por ali. Era conhecido como o bosque-com-caminho e conduzia para a região onde não havia nada mais do que algumas fábricas abandonadas, até onde eu sabia.

- Se não piscar o olho quebra, - ele disse.

- O quê?

- É uma brincadeira de criança. Se não piscar o olho quebra, nunca brincou?

- Não saio muito de casa. 

- Entendo – disse, se concentrando mais no volante.

Suspeitei que ele estivesse percebendo meu nervosismo, então meti a mão nos botões do aparelho de som tentando aparentar tranquilidade, e disse.

– Posso ligar o rádio?

Ele cobriu com a mão espalmada. Quando toquei, me pareceu feita de madeira.

- Melhor não, - olhou para os lados. - Não tem música boa essa hora. E o toca-fitas não está funcionando.

- Não sabia que fabricavam toca-fitas.

- Esse carro é antigo.

Passei o dedo sobre o painel lustroso.

- Parece bem novo. Eu ia te perguntar como conseguiu consertar tão rápido. É o mesmo carro, não é?

- É sim. O seguro cobre tudo.

Ficamos sem nos falar por um bom tempo. Não tinha sinal daquelas aves esquisitas no céu e ainda estava escuro. Olhei para o relógio. Os ponteiros oscilavam. Todos marcavam doze horas.

- Ei, cara. Meu relógio está maluco. São quantas horas no seu?

Os ponteiros do relógio embutido no painel do carro tremiam sobre o número doze.

- Não é nada, amigo. Os relógios ficam pirados quando passamos pela Estrada da Noite.

Fixei os olhos na estrada escura e esburacada que rolava debaixo do carro. Ele sorriu um pouco sem jeito e jogou a garrafa de suco no meu colo e disse.


- Foi minha mãe que fez. Está ótimo. Pode matar. 


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