segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 5 ’Companhia nas árvores'


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A neblina densa cobria a rua e obstruía a visão de um lado a outro. Eu estava de pé no ponto de ônibus. Nenhum carro trafegava havia dez minutos por ali. O silêncio causava a impressão de que um fantasma passaria flutuando sobre a calçada a qualquer instante. Cobri a cabeça com o gorro do casaco e esfreguei minhas orelhas com as mãos frias. Conferi as horas no relógio com dificuldade pelo vidro embaçado. Os ponteiros marcavam quatro e quatorze.

- Ótimo. Acordei cedo para ficar parado igual a um idiota aqui, - resmunguei. – Pelo menos não está chovendo.

Então, como se uma nuvem perversa estivesse me ouvindo, uma gota caiu no meu ombro.

- Maravilha...

Bem ao longe, além do rio e da estrada, a parte comercial da cidade se erguia com muitos prédios de aço e vidro. Cinco avenidas cintilavam a ponto de parecer sempre dia. Ainda assim não era suficiente para ofuscar as estrelas. Olhei para o alto. Notei os estranhos pássaros iam e voltavam silenciosamente de uma árvore a outra.

As nuvens estavam espalhadas e não havia sinal de chuva. O que não fazia sentido, pois senti um segundo pingo no topo de minha cabeça. Passei a mão para ver se alguma ave tinha me deixado um presente sujo. Se algo havia caído, evaporou no mesmo instante. Não achei nenhuma sujeira. Tornei a olhar para o alto. A próxima coisa caiu dentro do meu olho. Esfreguei nervosamente com os dedos. Novamente, não encontrei nada. Antes que gritasse algum palavrão às aves, uma enxurrada se chocou contra meu corpo. Disparei em direção ao abrigo do ponto de ônibus, mas a coisa parecia atravessar a marquise de pedra e me acertava sem parar.


Irritado, resolvi voltar para casa, e rápido. A cada árvore que passava, eu me encolhia sob copas para saber se as gotas cessariam. No quarto pinheiro que ficava antes do condomínio Vésper, não senti pingo algum.

- Que coisa doente, - gritei.

As aves estavam todas aninhadas nas árvores ao redor, exceto sobre o pinheiro. Eu vou entender perfeitamente se você não acreditar, mas posso jurar que estavam reunidas num círculo, todas viradas para mim, me espiando e cochichando. Evitei de toda forma os seus olhos redondos e negros. Fixei minha atenção no movimento do ponteiro que marcava os segundos.

Ao longe, um par de faróis brotou reluzindo no nevoeiro. Era a van que vinha roncando suavemente. Estava nova em folha. Não havia um arranhão sequer. Nem parecia ter se espatifado contra a pilastra dois dias atrás. O freio chiou como um gato moribundo antes de subir o meio fio. O rapaz abriu a porta do carona, me encarou de olhos sonolentos e disse:

- Tudo bem, amigo? Está com uma cara de diabo assustado.
 
- Estou bem. Acho, - olhei para os lados parecendo idiota. – Foi só uma coisa, estranha. Um monte de, não sei. Caiu no meu rosto. Ah.

- Pode explicar no caminho.


 Entrei cuidando para não sair da proteção dos galhos. Nenhuma gota me atingiu. Ele pisou no acelerador. O carro cambaleou pela rua e adentrou a névoa. Baixei o gorro e olhei para o retrovisor ao meu lado para ajeitar o cabelo bastante embaraçado. Um vulto negro, rápido como um raio cortou o reflexo por trás do veículo. Cuidadoso, olhei pela janela e as avistei sobre as árvores. Pulavam silenciosamente de galho em galho sem vergar ou derrubar uma folha. Seguiam a direção da estrada. Pus a mão em concha ao redor dos ouvidos. Não faziam barulho. Era como se fossem tão leves quanto vapor. Girei a manivela até fechar completamente o vidro e afundei no assento de braços cruzados.

- Você está sério, - disse o rapaz. - Algo errado?

- Nada. Acho que só não tenho dormido bem ultimamente.

Ele pegou um sanduíche com uma boa porção de frango e uma garrafa com suco com a outra mão. Abriu a tampa usando os dentes. Ofereceu um pedaço para mim, e, enquanto mastigava, falou algo que me deixou desconfiado:

- Então é bom se preparar. Esse trabalho exige bastante. O meu último ajudante não suportou. E morreu. Então, é bom ficar atento para não cair no sono. Você consegue.

- Acho que sim, - respondi de olhos arregalados.


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