terça-feira, 20 de setembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 4 ‘Oferta obrigatória’

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O leitor digital marcava onze e vinte. A sala estava completamente bagunçada. Driblei uma caneca com resto de café, embalagens de barra de cereal e um monte de guardanapo usado que meu hóspede não conseguira acertar na lixeira.  

- Mas que miserável... - resmunguei, empurrando a base do móvel e dobrando as juntas. -  Nem pra montar o sofá. 

Judas farejou algo próximo à mancha de manteiga. Um bilhete. Havia uma nota de cinquenta embrulhada na folha. Quando peguei, acabei sujando meu dedo com uma gota de molho barbecue na ponta do papel.  



- De onde diabo esse cara tirou barbecue? – disse, lembrando da geladeira vazia. 

Guardei o dinheiro no bolso e comecei a ler. A caligrafia parecia escrita por uma criança com um giz de cera. Demorei até conseguir decifrar.  

“Amigo. Não consegui agradecer. Mas, tenho um presente. Tomei a liberdade de dar uma olhada na sua casa. Rapaz, você está bem ferrado. Estou tendo uns problemas na empresa. Meu ajudante morreu há uma semana, então, trabalho  por dois. Gostei do seu perfil. Quero que trabalhe pra mim. Passo aí amanhã. 4h. Pode usar qualquer roupa. Tem que ser modesta, não pode chamar atenção. Deixei cinquenta pratas pela sujeira. P. S.: Você realmente me enganou. Achei que ia ligar pro hospital e chamar sua amiga enfermeira”. 

Lembrei da noite passada. O telefone caído no chão, fora do gancho. Enquanto afastava a carta suja da língua de Judas, girei o disco numerado com o fone apoiado no ombro. Até cansar. A operadora havia cortado o serviço de telefonia por falta de pagamento. Bati o fone no gancho. 

Aquele sujeito era bem estranho. Mas não tinha outra opção. Não agora. Avaliei se valeria a pena. Fiquei pensando que tipo de trabalho aquele cara fazia, se era trabalho pesado. Fui até a cozinha pegar resto de pizza na geladeira. Era o último pedaço. Meus pais viriam no dia seguinte pegar de volta a TV que o sujeito da empresa de energia elétrica havia levado. Dividi a pizza e dei a metade para Judas. 

- Não tenho saída, amigo.  

Deitei no piso gelado e abracei meu cachorro. Enquanto imaginava como seria o trabalho com aquele sujeito, deixei os olhos bem abertos. Evitava fechar. Toda vez que apertava as pálpebras, tinha a impressão de que uma manchinha verde, bem pequenina, aparecia lá no fundo. Igual à queimadura que fica no olho por um tempo depois de olhar direto para o sol. Mas ao invés do sol, era mais como um farol, um farol de locomotiva, uma locomotiva com uma garota conduzindo feito louca na minha direção.


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