quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 3 ‘Quando se houve o som da locomotiva'

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Meu corpo estava cansado. O sono não chegava. Permaneci deitado, rolando de um lado a outro da cama. Era o cartão. Aquele maldito cartão com o trevo bordado. A mesma sensação de olhar para a folha que a garota mal educada deixara na plataforma. Sentia coceira bem no lado em que guardava o trevo. Mas hesitei. Cruzei os braços ao redor da barriga e fitei a teia de aranha no teto. Nunca ficava totalmente escuro. Os refletores da rua eram tão fortes que a luz escapava pelas laterais das persianas.

Mal passaram dois minutos e minha mão deslizou pela calça. 

- É melhor tirar isso, - afrouxei o cinto e arremessei a roupa no canto. – Está  quente mesmo.

O rádio-relógio marcava duas e trinta em leds vermelhos. Judas produzia ruídos estranhos enquanto respirava. Bati nele com o travesseiro três vezes. Desisti na quarta, quando rosnou. Dificilmente tentava me morder, mas o pobre bicho parecia bem tenso, provavelmente por ficar encerrado tanto tempo no quarto.

- Tudo bem, cara. Não vou mais fazer isso. - Ele parou o grunhido.

Não era comum, mas, ás vezes, no meio da madrugada, dava para ouvir o apito do trem bem longe. Eu gostava daquele som. E acredito que a maioria das pessoas que não crescem muito por dentro também gostem. Era difícil viajar de trem. A escola e o emprego dos meus pais eram todos próximos de casa. Mal me aproximava da estação. Talvez por isso me sentisse tão atraído pelo barulho.

A ferrovia ficava a meia hora de caminhada do condomínio. Fora construída há um ou dois séculos atrás. Era utilizada principalmente para abastecer toda a costa da península leste com suprimentos de comida e arma. Alguma coisa a ver com a guerra civil de muito tempo atrás. Por ali, onde eu morava, desde aquela época foi uma espécie de ponto obrigatório de parada. As casas mais antigas foram construídas próximas da estação. Eram bem espaçosas, faziam parte de antigas fazendas, agora extintas. Morava um monte de família rica que tinha sobrenome suficientemente extenso para se manter afasta dos vizinhos.

Eu morava na parte sul da cidade, (próxima a uma vila que ninguém se importava muito em saber o que se passava, e que ficava mais ao sul ainda). A minha casa estava em uma região não tão antiga, ocupada basicamente por condomínios construídos para gente não tão pobre e nem tão rica, a uma distância considerável do centro comercial.

Tentei adivinhar de qual lado da cidade aquela garota viera. Vestida daquela maneira estranha, não parecia ser de nenhum lugar conhecido. Era um jeito bobo de se vestir. Principalmente pelo cabelo. Não era comum adultos continuarem com aquele hábito de criança, de pintar o cabelo com cores berrantes. Dificultava a beça arrumar um emprego. Conseguia lembrar perfeitamente do tom colorido balançando na plataforma de embarque. Se fosse uma anã de verdade seria bem engraçado. Poderia ter saído de um circo.




Foto: tebielyc

O apito tocou novamente. A princípio achei que o som da locomotiva estivesse mais alto, como se o maquinista puxasse a corda com mais força. Nunca ouvira com tanta clareza. Apertei as pálpebras para me concentrar. Os olhos doeram de tão escuro. O assovio soou outra vez. Não estava mais alto, eu me enganara. 

Estava mais perto.

Sentei e olhei para trás. Uma luminosidade esverdeada se infiltrava entre fendas mínimas das persianas. A janela parecia ladeada por lâmpadas de esmeralda. Judas continuou deitado, rocando. Não moveu um palmo, mesmo ao som de rodas mastigando trilhos cada vez mais próximo.

Minhas costas gelaram, e o frio arrepiou até o topo da cabeça. Achei que a coisa estivesse atravessando a avenida, e logo fosse chocar contra o frente do apartamento. Fiquei em pé sobre a cama. Tropecei nos lençóis enquanto me dirigia à janela. A respiração sufocava e ardia, como se engolisse cubos de gelo inteiros.

Hesitei abrir. Imaginei a garota de cabelo colorido dirigindo a locomotiva, o sorriso enlouquecido. O dedo do meio apontando para mim. Pus as mãos entre as lâminas da persiana. Não conseguia mover nenhum centímetro. A luz ficou forte, e mais forte na medida que o barulho aumentava. Foi quando o quarto submergiu todo em verde faiscante. Mesmo com os olhos fechados, os raios atravessavam as pálpebras.

- Tudo bem! – gritei correndo para pegar a calça. – Eu entendi! Eu entendi!

Caí de rosto no chão. Arrastei a barriga até encontrar a roupa. Tateei o bolso. A folha estava no mesmo lugar. Retornei para a janela com ela nas mãos, mas era tarde. A cama começou a estremecer. O ventilador de teto girou tomado por uma corrente invisível. As persianas sacolejavam. Uma brisa agitou minha franja. Recordo que fiz a única coisa que me ensinaram em circunstâncias assim: ajoelhei e comecei a rezar.

Não sei se já aconteceu com você, de não ter certeza se um sonho foi de fato um sonho . As pessoas têm dificuldade para lembrar a maior parte do próprio passado, não me surpreenderia se também confundissem acontecimentos reais com sonhos. Foi assim comigo. Ela não me disse depois. Não me disse nunca.

Mas, apesar da dúvida, quando Judas me despertou com lambidas no rosto, notei que não vestia as calças. E minha mão estava dormente. Sentia falta do trevo, como se marcada em brasa.

- Sai, garoto! – gritei, afastando-o do meu rosto.

Investiguei debaixo dos lençóis. O trevo estava bem ali, ao lado do travesseiro. Não era um cara supersticioso, mas, por via de dúvidas decidi nunca mais andar sem a folha. Certamente não andaria com aquilo pela sorte que os trevos prometem, mas pelo azar que me acompanharia dali para o resto de minha vida.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 2 ‘Cartão de visita’

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Não sei por que diabo não chamei a polícia. Ou, então, não joguei aquele cara no banco carona e comecei a dirigir para o hospital. 

A lataria do carro havia amassado bastante, mas os eixos das rodas estavam perfeitos. Percorri as quadras restantes com facilidade. Na verdade, estranhei o fato de que um veículo pesado como aquele fosse tão fácil de dirigir, quase como se tivesse vida própria.

O zelador me ajudou a carregar o rapaz até meu apartamento. Abri o sofá-cama, forrei o tecido manchado com lençol e arrumei um travesseiro. Judas rosnou para ele. Foi necessário prender o bicho no quarto. Eu conhecia uma enfermeira, velha amiga de escola. Pensei em pedir informações sobre cuidados médicos. Sentei-me na ponta da cama. Pus o telefone no ouvido. Girei o disco numerado. Imediatamente a ponta do tênis tocou minhas costas.

- Amigo, não foi tão grave, - resmungou o rapaz. – É só tirar um cochilo que já estou novo, - ergueu os braços e girou. Estava um pouco arranhado. Nada demais. – Viu? Sem ferida.

- Você desmaiou. Pode ser uma concussão, ou coisa do tipo.

- Essa cabeça de bigorna? – ele forçou um riso, circulando o indicador na extensão do próprio crânio. Se não apontasse, eu nem notaria a desproporção, devido à largura dos ombros e ao resto do corpo. – Só preciso de uma aspirina. 

- Onde você mora? Posso ligar pra sua família. 

- Moro sozinho. E tenho que trabalhar amanhã.

- Qual o telefone do trabalho. Posso avisar que você sofreu um acidente.

Insisti, movendo o disco do telefone outra vez. Ele tentou se levantar. Mas cambaleou tendo que se apoiar sobre o cotovelo dobrado.

- Agradeço, amigo. Mas não. Não posso faltar ao trabalho. 

- Que coisa horrível.  Trabalho escravo isso?

Judas latiu ao ouvir minha voz. Em seguida, começou a arranhar a porta. O rapaz arregalou os olhos. Tentei acalmá-lo:

- É o cachorro. Ele não morde. 

Ele pôs as mãos com os dedos cruzados atrás da cabeça e voltou a se deixar apoiando a cabeça no travesseiro.

- Esperamos que não.

A pausa durou um minuto. Ele, encarando teto, eu, com as sobrancelhas arqueadas.

- Então? – perguntei.

- Uhm.

- Onde você trabalha?

- Olha. É muita bondade sua. Mas eles vão me demitir.

- Não é contra lei? Digo. Você sofreu um acidente. Não consegue nem se levantar.

- Não tem problema. Eles pagam bem, - afofou o travesseiro e fitou por um longo tempo o ventilador pendurado como se fosse feito de ouro.

A curiosidade me cutucou. Pensei em perguntar sobre o valor, ponderei. Poderia ser falta de educação. Quando mudei de ideia, ele mal fechou os olhos e um ronco de descarga subiu pela garganta. 

Seu tênis estava bastante sujo. Tirei-os antes que esfregasse a sola contra o lençol. Ele rolou para o outro lado, deixando a carteira cair do bolso. Era necessário saber que tipo de cara eu trouxera para casa. Não julguei fazer mal em pegar e olhar um pouco. Procurar alguma pista. 




Tinha um maço de notas de cinquenta e cem no vinco principal. No vinco menor, havia uma foto dobrada. Uma van extravagante, exageradamente colorida com o teto adaptado, estacionada de frente a uma bela praia paradisíaca. Não identifiquei exatamente o lugar, mas devia ser uma ilha desconhecida em algum lugar perdido do Índico. A letra ‘F’ marcava a borda em vermelho, bem acima da prancha de surf. Parecia um recorte desses panfletos com anúncios de viagens. 

Tateei a parte onde deveria guardar as moedas. Não havia nada. Mas senti algo por baixo. Um relevo. Mexi até encontrar a abertura para o compartimento secreto. Puxei a minúscula braguilha, e, então, surpreso, abri a boca num perfeito ‘Ó’. Com os dedos em pinça, tirei uma peça na forma de moeda. Era feita de pedra brilhante, certamente valiosa. Tentei ler as inscrições na superfície, mas não era nenhum alfabeto ou símbolo que conhecesse. Aquilo deveria estar guardado num cofre, pensei. 

Procurei por mais peças. Encontrei algo bordado, um desenho que consegui decifrar. E que me fez a espinha gelar mais que um freezer. Puxei um pedaço de couro no formato de cartão de visitas. O símbolo bordado era um trevo. Esfreguei os olhos até doerem. Tornei a analisar o cartão. Virei para trás e encarei a estante, olhei pela janela sobre o sofá-cama, tornei atentamente a ilustração. Estava turva, como o trevo da garota. Não sabia dizer se problema era com o bordado ou com minha visão. 

- Três ou quatro folhas? – balbuciei. 

No verso, não havia número de telefone. Apenas uma inscrição em letras douradas, grandes e simples:


4ª FOLHA S.A.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Oráculo de nuvens

A última colheita da tarde já havia levado o sol, pensei. Apaguei as lâmpadas de filamento e fechei a janela para dormir. Todavia, um vento frio, nascido no extremo ocidente, soprou nuvens sobre toda a extensão dos campos que cobriam minha casa. Fui lá fora e vi. Nuvens altas. Nada se escondia delas, ainda que se refugiassem além das muralhas do horizonte. Naquele instante as nuvens podiam revelar o leito do sol. Sobre os brancos rostos brilhava o tom adormecido daquela estrela.


Naquela tarde, deitei sobre o campo, fiquei com a cabeça voltada para minha casa, - uma construção de alvenaria erigida desde as fundações da terra, a mesma terra em que meu pai e meu avô pereceram. Enterrei seus ossos e ergui uma cruz. Toda a aquela extensão, por um instante, foi coberta pelo bronze de nuvens. O solo absorveu o tom cinzento, transformando-se na face de uma moeda, e as folhas das plantas menearam para o norte e para o sul. Imaginei se fora aquilo  que avistavam os antigos artesãos que deixaram as visões gravadas no teto da Igreja, ou esculpidas na rocha que lajeia o Forte.

As nuvens eram pontes, que também poderiam ser torres. Colossos atravessando os séculos em uma breve tarde de agosto. Um homem aleijado de muitos nomes apareceu naquela visão. Éramos fração do mesmo galho. Fitávamos às nuvens de mãos atadas. Com a outra mão, ele apontou uma águia, e me revelou o nome de todas as águias que vieram antes daquela. E com o lábio descarnado, me cantou o sono do sol. Por fim me pediu para guardar segredo. Eu não obedeci. Repetia cada som bordado de ouro em minha boca úmida.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

[Do retorno de Orlando] A última hora do primeiro dia



Ainda que Orlando grunhisse a língua dos porcos, não haveria sequer um demônio na terra que lhe desse ouvidos. Homem e porcos era a ordem.  E Orlando já se retirara da presença de ambos havia vinte e quatro anos. Não de todos, mas na maior parte do tempo estava só. Não se reproduzia com eles a solenidade, nem comunicava qualquer intimidade. Dos motivos para Orlando se retirar assim à montanha do próprio espírito, eram os hábitos homens: restavam apenas os maus, dizia. Relegavam-se em governo de luxúria superior a dos porcos, no entanto, não se eximia certa civilidade estabelecida pelas horas. Espécie de balança que ia da bestialidade ao relógio. De manhã, despertavam para trabalho. Queixavam-se do sol lhes queimando o rosto pela janela, e da chuva elevando o nível dos rios, afogando as ruas, e conduzindo corrente elétrica dos postes até os nervos e matando o incauto. Fosse espremidos em conduções e envoltos em fumaça, ou em ar refrescante e mal ventilado, tratavam os dias como longa fila espera. E ao retorno, alguns propositalmente se perdiam pelo caminho. Atulhavam prostíbulos como costume de marinheiros, mas sem o respeito para com os monstros sob as ondas. Apesar de serem tratados como bestas pelas meretrizes, de fato não eram alinhados a natureza das feras. Enquanto a dignidade das feras se sustentava no mérito da violência inerente à criação, a dignidade dos homens não ia além do primeiro degrau de Jacó, dizia Orlando. Nasciam sem ouvir de onde vinha o som da trombeta, todos os dias a tropeçar e cair, e a romper com a nuca, enfim, a irrigar a calçada com o próprio sangue. Este era o novo mundo no qual Orlando nunca nascera, pois era ele o mais velho espírito entre os viventes. Já não se reconhecia entre os demais. Não se recordava se, por uma mulher, de fato um dia fora concebido. Indagava se talvez não fosse ele seu próprio pai. Ele mesmo a própria árvore, frutos e sementes.






Orlando acordou sonhando com a mesma escada que atravessava os nove andares até o ponto mais alto da criação. O fôlego abandonou os pulmões. A garganta contraiu com as duas mãos delicadas de Catarina atravessando a pele com uma lâmina. O som saiu baixo demais para algum anjo ouvir, ou mesmo para que algum diabrete curioso viesse em seu auxílio. Estava Orlando só, longe da natureza e à beirada do precipício do lábio da morte, que se abria. Não houve instante para arrepender-se de tê-la levado para casa, aquela jovem cheia de vida e sem lar. Era caridoso. Vira Catarina nas vielas miseráveis e decidira dar-lhe abrigo e pão, como lhe ensinara a mãe, e o ordenava o mandamento. Ao nascemos, a matriarca dizia, uma trombeta é tocada em algum lugar. Ele imaginava o timbre metálico vibrar nos ouvidos, o som atravessando o túnel feito de latão até atingir o espírito preso à garganta. Nunca mais lembrou daquele som. Mas agora ele ouvia. Porque era melodia igual ao que os anjos tocam no último dia de nossa vida. Quando retornam, algumas pessoas se recordam pouco das notas. Outras confundem a música da morte com luz atravessando o poço. Orlando, ao abrir os olhos sobre os refletores de mercúrio e descobrir que a carne ainda era parte de si, como milagre, retinha na memória cada compasso e nota daquela música tocada pela trombeta. Agitou-se no leito em busca de uma folha. Uma caneta. Algo para traduzir em notas a música terrível que marcara sua mente como uma lança que atravessa o coração do homem preso na velha árvore.