quinta-feira, 12 de maio de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 1 ' Encontro com a sorte '

Leia o prólogo AQUI

Na manhã seguinte, depois de alimentar Judas com restos de pizza de micro-ondas, fui procurar um emprego. Achei que seria mais fácil trabalhar o mais próximo possível de casa, então decidi ser ajudante de qualquer coisa no condomínio.

Desci pelo elevador e fui para a área de lazer. O zelador estava na beira da piscina tirando algum animal morto com um gancho. Ele me viu e acenou de forma agradável. Acenei de volta, sorrindo e dei meia volta. A última vez que vira algo morto fora um rato que meu primo Hen. explodiu no natal. O ramo da limpeza definitivamente não era para mim.

Eu nunca acreditei em boa sorte, nem naquela época ou hoje em dia. E permaneci sem acreditar que teria alguma enquanto andei por longas horas bisbilhotando as lojas da Alameda d’Ispazzio, no centro da cidade. Durante minha procura observei cada pessoa suportando em pé o trabalho de vendas de roupas e acessórios esportivos. Devia ser doloroso ficar encurvado na caixa registradora apertando centenas de teclas feito um robô. Não conseguia me imaginar igual a eles. Ficar plantado atrás de um balcão engordurado de fast-food, vestindo uniforme e dizendo: “bom dia, senhor, em que posso ajudar”.

Um coroa bem insistente me parou. Queria que eu dissesse meu telefone e endereço. Senti um pouco de pena. Ter que perguntar nomes e endereços de prancheta na mão e meio velho daquele jeito. Tudo bem que minha avó trabalhou até morrer. Mas, pelo que meus pais me contaram, ela quis morrer assim. Ele tinha cara de que nunca teve o que desejou de verdade.

Já eram três horas da tarde e tinha no estômago apenas a pizza que comera de manhã. Faminto, sentei na praça de alimentação de uma galeria, dessas de dez andares e com montes lojas para tatuagem e discos.

Senti a barriga roncar.

O filho de um casal na mesa da frente começou a espernear porque o brinde do lanche não era o Homem-Aranha. A criança gritou tanto que eles se levantaram constrangidos, deixando um monte de hambúrguer e batata frita. Sem pesar, levantei e me sentei à mesa. Acho que ninguém realmente se importa se você faz isso de forma natural. Devorei o máximo que podia e pus o que restava numa sacola para Judas comer mais tarde.

Depois de algumas horas perambulando pelo centro, não tinha mais o que fazer. Pouco me importava se não tinha conseguido emprego. Não esperei a noite cair. Distraído, retornei para casa andando. Quando eu tinha uns treze anos testava minha noção de direção entrando em ruas aleatoriamente, só para ver se conseguia voltar sem me perder.

Já estava tarde e não sabia que ruas eram aquelas ou qual a direção certa. Eram bem mais silenciosas que a minha. Devia ser a área onde pessoas ricas moravam. Havia tantas árvores que mal se via a luz dos postes. As copas cobriam o céu formando um túnel de folhas que ainda não começavam a cair. Foi como eu disse antes... não existe motivo para acreditar na boa sorte. Com exceção de uma vez na vida: numa noite em que se perde distraído, e só percebe uma coisa estranha e com baixa estatura no seu caminho.

A boa sorte se parece um anão.

A primeira impressão que tive era de ser um anão andando rapidamente na calçada oposta. Depois achei que fosse uma anã. Apertei a visão ruim na meia luz. Talvez fosse uma garota. Não dava para saber.

Eu a segui. Tentei manter distância para não parecer um psicopata. Apesar disso, ela acelerou os passos. Devia ter-me ouvido pisar nas folhas. Quando ela virou à direita, esperei um instante antes de prosseguir. Então fui para o mesmo lado. Era uma viela que conduzia à estação de trem que reconheci ser a próxima de minha casa. E a coisinha baixa estava lá, na outra extremidade da rua, de braços cruzados, mas não estava assustada. Pelo contrário, parecia sentir bastante raiva; me senti idiota, de um jeito que é bem provável que você também se tenha sentido em algum momento na vida. Admita. E talvez tenha feito algo parecido: para me desculpar pela esquisitice e me explicar, acenei andando rápido em sua direção. Antes de eu dizer qualquer coisa ela virou as costas e correu para a estação. Acelerei o passo, mas sem correr; e me sentia tão estúpido que pedi a Deus para não conseguir alcançá-la, para tropeçar, espatifar o rosto no chão e desmaiar e nunca mais acordar.

Ela era mais veloz do que imaginei. Quando subi as escadas para a bilheteria, já estava na plataforma. Não consegui focar claramente, sem óculos, mas acho que ela levantou a mão e fez sinal nada delicado com o dedo do meio. Não ouvi se me xingou também, pois o trem se aproximava.

Apesar de pouco enxergar, reparei algo em seu peito, como um broche. Podia ver perfeitamente. Era verde e parecia um trevo de papel. Quando abaixou o braço, a folhinha caiu. Ela não percebeu. Entrou no vagão assim que as portas se abriram. Eu queria gritar, mas o segurança enorme me intimidou lá de baixo. A folhinha balançava com o sopro dos gases da locomotiva. Ficou na beirada da plataforma, e a moça agora exibiu os dedos médios de ambas as mãos pela janela do vagão, pondo a língua para fora.



O segurança da plataforma observou a moça e tornou a olhar para mim, que não tirava os olhos da folha. Calmamente, ele pegou-a, num segundo antes que caísse no vão dos trilhos. Depois veio até onde eu estava. Era um sujeito enorme, provavelmente a espessura dos braços era a mesma de meu corpo.

- Sua namorada? – perguntou.

- Oh. Sim. É. Sim, senhor.

Ele percebeu minha hesitação.

- Tem certeza que conhece a garota?


- Claro. Ela perdeu esse trevo, que eu dei no dia de São Patrício, - tentei expressar decepção.

- Uhum, - fungou, coçando o nariz. – E qual é o nome dela?

- Mielle, - disparei sem pensar. – Estava com raiva, você sabe, porque esqueci o aniversário de namoro. Elas são sempre difíceis assim?

- Não sei. Mas compreendo, - respondeu mudando a expressão para um meio sorriso. – Vou te dizer, rapaz. Aconteceu algo parecido comigo. Minha quarta esposa tentou me matar, sabe. Esqueci o aniversário de casamento.

Ele falava sorrindo. Não sou o tipo que acha tentativa de homicídio engraçado por motivo algum, mas sabe como é... eu ri. De verdade.

- Jovem, qual seu nome?

- Alfredo, - menti sem querer.

- Alf, posso te chamar assim? – ele tinha um ar paternal. Pôs a mão na minha cabeça como se eu fosse um garotinho. – Ouça com atenção: tenha muito cuidado na hora de escolher com quem você vai ficar para sempre. No meu caso foi sorte. Na hora que ela começou a me sufocar com o travesseiro, eu tinha lembrado de dormir com minha Bereta. Nem todos têm a sorte que eu tive.

- Bereta?

- Sim, Bereta. É a marca do meu revólver.

Senti calafrios.

- Com certeza, senhor, - olhei para a identificação no uniforme, - com certeza, senhor Trajano.

- Vai para casa e reflita bem sobre isso, meu filho.

Entregou-me o trevo e o guardei no bolso do casaco.

- Vou passar a noite toda refletindo.

O sorriso fingido só saiu do meu rosto a um quilômetro da estação. Não tinha dinheiro para passagem e tive de voltar a pé. Estava escuro, mas pouco me importava os tropeços nas rachaduras das calçadas.

O insulto da moça não me saia da cabeça. Não era certo ir atrás dela daquele jeito, mas como ela podia ser tão ignorante e me insultar assim? Faltando poucas quadras, sentei num tronco para descansar as pernas. Na verdade não eram as pernas. Era a folha que me incomodava. Queria vê-la outra vez, como aquela vontade que você tem de olhar para os sapatos novos a todo instante quando é criança. Tirei-a do bolso e ergui contra a luz do poste.

Algumas pessoas não creem que é possível a sorte aparentemente sem motivo te fazer companhia. Tenho amigos que pensam assim. São as mesmas pessoas que jamais acreditaram em minhas histórias, ou mesmo que eu existi. Mas o que aconteceu, aconteceu de uma forma que não posso negar que foi de verdade. Ao lado do tronco na calçada onde me sentei, havia um poste de metal. Eu não ouvi nada quando a van branca desviou de um carro na contramão, subiu a calçada e se chocou contra aquela pilastra, o que impediu que passasse por cima do meu corpo. Não estava rápido o suficiente para estilhaçar o para-brisa, mas o ar com cheiro de pneu queimado agitou meu cabelo.

Dentro do veículo, o motorista não usava o cinto de segurança, e pendia a cabeça sobre o volante. Corri para ajudá-lo. Era um sujeito forte de cabeça que parecia um cubo de Lego, pouco mais alto que eu na época. Abriu a porta pulando para fora, tonto. Abaixou a cabeça curvando-se para frente e vomitou quase acertando meus pés.

- Oh, merda, - disse com a voz líquida.

Arrotou e cuspiu sangue. Eu peguei a toalha sobre o painel e ofereci a ele.

- Obrigado, cara, - agradeceu. – Quer uma carona?

- Você está bem? É melhor ir ao hospital, - respondi compassivo.

Ele me ignorou.

– O seu carro. Acha que vai precisar de reboque?

Ele voltou ao veículo. Não demorou a dar a partida. Deu marcha ré, alinhando ao meio fio. Depois abriu a porta do passageiro e disse:

- Não tenho seguro. Você quer ou não a carona?

Meti o trevo no bolso.

- Tem certeza de que não quebrou nada, cara? Sua testa está sangrando.

Ele limpou a ferida no meio dos olhos e respondeu:

- Eu não tenho e nunca faço questão de duas coisas nessa vida, amigo. Seguro e frescura. Vai pra onde?

- Estou indo para o condomínio Vésper.

- Então é para lá que eu vou te levar.


Entrei no veículo aliviado porque não precisaria mais andar. Todavia, aquele sujeito não me levaria a lugar algum. Antes de pisar o acelerador e engatar a primeira marcha, ele desabou sobre o volante como um búfalo abatido em uma tourada fazendo a buzina berrar sob o peso de sua enorme cabeça. 


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terça-feira, 3 de maio de 2016

Dos sentidos

Respira o ar que sai da boca. O próprio perfume lhe basta. Há ocasiões em que o coração engole o sangue; as mãos e a postura fremem. O poro abre de repente: a pele expele memória. Os segundos se abatem na impostura das aves nos beirais do prédio. Em favor do momento, ninguém passa por nós. Quando mal, a boca transborda água. Dentro dela, duas tempestades sucedem ao toque. Não se enxerga sob as dunas de névoa algum continente. Apenas montanha de cinzas. Dois caprinos duelando à beirada da rocha. A ponta dos chifres fere o flanco dos céus em sua queda.



Crédito da foto: Lost in one's own thoughts by TMPhtographia



Os corredores se incendeiam de luz azul elétrica. Entre dentes, retém sabor de morangos. Fecho os olhos e vejo o sorriso tateando minhas digitais, um vitral colorido no escuro. Agarro à rede feita de cabelo ao redor do rosto. Sob as unhas guarda minha pele e meu sangue.
A língua lança uma pedra.
Estilhaça a janela do santuário.