sábado, 23 de abril de 2016

Ruído do tempo (trecho de "O dia escondido")


"Era outono. A pequena surpresa surgia seguramente sobre os seis primeiros meses em que as folhas começavam a cair do alto das árvores. O vento começava a beber aos poucos as gotas remanescentes do último dia da estação e o inicio da outra. Dizia-se, às margens do período de celebração, que em tal gravitante transição, do verão para o próximo, se escondia um dia que tramitava à sombra de todos os outros. 







A luz de verão e a nudez das nuvens do outono, dizia-se, ofuscavam ao mesmo tempo que obscureciam, escavando em relevo um túnel, tornando tal dia em forma de segredo no vinco obtuso do bolso do tempo. E de todas as coisas que existiam no mundo inteiro, do oeste da água ao brilho na pedra da gruta, aquela era a única que para nós ainda restava alguma dúvida."

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Arthur ao tolo - Todas as histórias

"- E não se esqueça, meu bom tolo: o riso só ecoa porque as paredes da casa são protegidas por muralhas de pedra. E toda galhofa ilustrada de lisonja se acomoda à sombra da paz de espada. Não estamos ainda no Paraíso, amigo tolo. E se, não estou envolto de engano, não são doces anjos que habitam e perambulam errantes pela terra."

terça-feira, 19 de abril de 2016

Deleite II


Poderia sugerir tão somente: - é semelhante o deleite à inscrição que supõe um coração morno num tronco. Inscrição talhada por golpe de duas fúrias, ambas enamoradas.

E ainda que seque toda seiva da árvore, a memória morta da casca jamais esquecerá o som de nosso nome. Ela nunca mentirá. Denunciará ao sempre que foram duas as feras que por ali caminharam. E afirmará que foi ali, sob os lençóis de sua sombra, onde juntas se deitaram.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deleite I


De todas as coisas que hesitei nesta pretensiosa e tola anatomia, foi o deleite. Porque não se margeia com linha os movimentos do corpo. Não se costura na seda a viscosidade do desejo, o cheiro de fios de cabelo molhado e o calor da testa, das bochechas confusas, dos ombros aos lombos mordidos e costas arranhadas com garras. 

Créditos de Fotografia: PapelPapel (blogpapelpapel.blogspot.com)

Teatro de sangue




"E alcancei o sussurro da árvore, ela dizia algo sobre a caça noturna dum tigre branco, morto à borda do riacho, curtido, a cabeça transformada em máscara e a pele em corpo, o caçador costura fantasia de tigre, veste-a para cantar a noite da caça ao tigre branco, os filhos e os netos aplaudem. (...)





O neto, agora velho, delibera o feito imprimindo-o na parede. A noite de caça deixa de ser rotina para ser noite de canto. O sangue do tigre branco abandona o calor da veia, escorre na parede e conta a morte. A água deixa seu barulho imitar o sangue lavado da mão do caçador entre as pedras do riacho. O tigre é forte, diz o rio de sangue na parede, por isso o pai era e o filho e o neto são fortes, assim como os netos dos seus filhos e os filhos dos filhos serão fortes, apenas porque o deus tigre é forte."



terça-feira, 12 de abril de 2016

Mapa costeiro



Qualquer viajante que margeie a enseada é ignorado pelo atol e pelas angras, pelos marinheiros e gaivotas, - é teu o oceano inteiro. Tive então de interromper a travessia pela terra, caminhar para eflúvio espumoso. Sobre o mar nenhum filho do homem caminha, pois hoje não há tempestades, por isso, persegui os degraus das ondas.

A água de repente desperta. As ondas se jogam contra o rosto fazendo quase me afogar. Agarra-me as pernas, me retraio como um nautilus. Adentro sua concha em espiral secreta, e os meus ossos erodindo feito castelo.
Não se caminha pela beira da areia. As invasões violentas e breves de espumas me encheram os pulmões de esquecimento. As águas tapam meus ouvidos e me ensurdecem em ameaça:
Ou o mar. Ou nada. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Anatomia de Julho - Submersa


A caneta desliza entre os dedos e se perde na banheira. E afunda. Até encostar a pele entre as coxas submersas. Em verdade, agora o mundo está todo escrito. As folhas de papel se soltam das mãos e molham como plumas. Morde a maçã. As gotas de suco desenham o queixo e caem no seio. Afunda, a cabeça retorna ao primeiro batismo. Não se ouve nenhum choro ou lamento. Volta a face para cima. O mundo é surdo sob a d'água. Não se vê formas, apenas vagos nós de luzes serpeantes.
O mundo é cego debaixo do espelho.

Anatomia de Julho - Considerações



I

Não posso considerar nada a respeito de um mês sem ter vivido seus dias, ou mesmo ditar algo sobre seu sabor sem ao menos o ter imaginado passear na minha língua. 

II

Jamais saberei se trata-se apenas de mim e não de ti, ou dos nós nos fios de cabelo que acordam unidos em coro de quando adormecemos à noite.

III

As tramas desejam ser ouvidas, enquanto ainda podemos nos ouvir respirar.

IV




(Pintura de Alyssa Monk)


Sobre Anatomia de Julho


Faz alguns meses que escrevi um livreto curto para presentear uma pessoa. Chamei-o imediatamente de "Anatomia de Julho". Se tivesse que explicar sobre o que é, diria tratar-se de breves capítulos ou versículos consequentes do choque tênue, confuso e violento entre dois universos, dois pedaços de vida. Durante a escrita, não procurei ser claro, tampouco obscuro: simplesmente escrevi algo com a pretensão de ser um texto belo e terrível. Acompanhem pelo marcador.

Nada mais.


P. S.: Agradeço a todos que dão vida ao que escrevo com suas fagulhas inomináveis dançando por trás de seus olhos.



Jonatas T. Barbosa