quarta-feira, 30 de março de 2016

Sob a margem do oceano

"Olhe para vocês, andando de uma lado para outro, perdidos sobre os próprios rastros na terra. Mal sabem por onde caminham, porque, se seguem por uma estrada, os seus olhos já não mais guardam receio: os seus passos se confundem com a paisagem. Muito sabem sobre a direção dos polos e o volume do espectro das estrelas, mas nada imaginam sobre o que se passa por baixo dos oceanos da terra."

segunda-feira, 28 de março de 2016

Relato de como conheci a bruxa e o herói


Um dia acordei com uma mancha de umidade brotando no alto da parede do meu quarto. Era pequena no início. Parecia um pequeno olho composto de mosca e tratei de consertar o cano o mais rápido possível. Mas as semanas se passaram e o cano estourou novamente, e justo durante uma viagem que fiz para outro estado. Agora a coisa não era apenas um olho escuro me encarando, mas duas cabeças grudadas numa só com as orelhas com lóbulos grandes, nariz de gancho e uma pança de elefante. 

Para entender melhor o que se passava, contei o caso aos meus pequenos alunos que ouviam atentos, e com eles descobri que na verdade a mancha
era uma bruxa tentando encontrar o caminho para dentro do meu quarto. A criatura antiga desejava atravessar um túnel de fungos e umidade para roubar meus sonhos todas as noites. E a única forma de combate-la e fazê-la recuar era lembrando em voz alta a história de um herói que lutara contra todas as bruxas que existiam até a morte. Assim sempre a manteria do outro lado. 

Na mesma história um desses pequenos alunos me lembrou que o herói renascia toda manhã antes do café para viver a aventura mais uma vez, e toda vez que a gente se lembrar.



Breve nota: Acredito que toda ação eclode em mundos infinitos, seja lá o que sejam mundos infinitos e mesmo que não tenha mínima ideia do que é uma ação. Mas tudo isso deve ter muito a ver com esse conto, porque o comentário do Diego (Blog Vida & Letras), por exemplo, me deixou muito feliz e acabei escrevendo isso sem ter a mínima ideia de como, mas sei que uma coisa não se separa da outra. Um comentário amigo, uma emoção boa ao lê-la e uma história que vem à mente. Tudo ecoando na água do mesmo lago.


www.blogvidaeletras.blogspot.com

Fotografia

O velho pulou fixo em minha visão. O carro passou como o vidro de uma câmera objetiva. Seus dois braços sujos erguidos, as duas mãos paralelas, cobertas por um trapo de luva, os dedos esticando pela ponta um negativo de fotos novinho em folha.
Contra o céu dava para ver melhor a fita cor de mercúrio de algum rolo perdida no meio do lixo. Não me importei com as cabeças de bonecas ou as panelas velhas com as quais poderia arrumar uma grana no ferro velho. Nem ele se importou. Pôs o joelho seguinte sobre o saco azul rasgado, ajeitou a postura acinzelada, e compreendemos. Alguém deve ter digitalizado as fotos e jogou fora.

Sobre o dia de Páscoa

Eu menti para você. 
Na verdade quem escreveu meus textos foi uma hiena mal humorada viciada em cigarro e café e que cisma e fazer tudo numa máquina de escrever. Ela desejou feliz Páscoa a todos e pediu para guardar os coelhos para ela. 

A hiena adora coelhos.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Relato de escrita íntima


Esses últimos 4 dias foram MUITO pesados.
Eu comecei a ler Barrie sem parar e todos os capítulos. Aquilo era tudo que eu queria escrever.
A escrita dele é a escrita que chamo de praia.
Você pode brincar na areia, se divertir catando conchas.
Mas pode se arriscar e ir fundo. Andar na água até os joelhos.
Inclusive se afogar com sal.
Quando terminei, comecei a ficar tenso porque me sentia extremamente responsável, e me sentiria muito mal se fizesse algo que não fosse à altura.
Então, um peso parecia congelar minhas mãos e minha cabeça.
Fiquei horas na frente do computador sem saber o que escrever.
Desisti. Ia deixar para o outro dia,
Comecei a ouvir o instrumental do filme Finding Never Land.
A música fez meu olho se encher d’água. Foi aí que minha mão parecia não ter controle. Não parei de escrever por umas cinco horas, ou mais, não lembro.
Mas ainda assim, no final continuava angustiado. O texto parecia um lençol esburacado. E até agora acho que ainda tem uns furinhos daqueles que saem goteira.
Mas explicando isso para você me sinto beeeem melhor. 
Obrigado por estar por perto para ouvir. 

J.

sábado, 19 de março de 2016

Em honra do Outono






"E desfolhou a página aos pés da relva onde formigas tracejam açúcares e brados inaudíveis ao míope e não às folhas que em arados e seiva perecem como versos que à floresta dedicamos enquanto faltam-nos forças para confessar o grão e a vereda que debaixo dos polegares amargamos."







 Uma contribuição de um dos parceiro deste Blog.
http://blogpapelpapel.blogspot.com.br/


sexta-feira, 18 de março de 2016

sinto o dia remando a pele
- nasce na boca o sol
derrama feito céu o orvalho
enterra os dedos molhados d'Aurora

sábado, 12 de março de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - Prólogo

Na mesma noite em que completara vinte anos, meus pais fugiram de casa e fiquei sozinho para pagar as contas no dia seguinte. Parece absurdo, mas é verdade. Eles não avisaram para onde foram e não deixaram nem um número de telefone. A única coisa que encontrei foi um bilhete sobre a mesa escrito:

ARRUME UM EMPREGO

Nessa circunstância você pode imaginar a primeira coisa que fiz: Sim. Abri uma lata de refrigerante e assisti o último episódio da série Friends pela enésima vez antes que cortassem a energia da casa.

Alguns minutos se passaram entre um sono e outro. De repente despertei com o barulho da campainha. Corri com a cara amarrotada para ver quem era. Através do olho mágico vi dois homens no corredor do apartamento. Um alto e outro baixo, bastante calvo o primeiro, e o segundo mascava chiclete de boca aberta mostrando os dentes esburacados. Ambos com uniforme da companhia de energia elétrica. Estremeci e voltei para cama pisando silencioso como um gato. Pretendia me esconder debaixo das cobertas até que fossem embora. Todavia, Judas, meu cachorro Cocker spainel preto e orelhas grandes estava alegre demais para conter os latidos e saltou sobre meu peito. Como você deve bem saber, amigo, na época eu era bastante magro, muito mais do que hoje em dia, e qualquer ventania um pouco forte me fazia cambalear. Foi o que aconteceu: o corpo estabanado do cão me empurrou para cima da estante. Os troféus e as fotos em família caíram feito pinos, e a lambida no rosto me fez cócegas.

Os homens por fim ouviram a bagunça e sabiam que havia alguém em casa. Cabisbaixo, tive de atendê-los.

- O senhor deve pagar a conta atrasada há duas semanas, - disse o mais alto precisando abaixar a cabeça para entrar. – Assim que o pagamento conferir no sistema, o senhor ligue para acionar a reposição de energia.

O homem mais baixo foi para a cozinha e lacrou a chave geral. No mesmo instante, o motor da geladeira parou de vibrar e o ventilador de teto silenciou.

- Bela TV você tem aí, garoto, - disse, encantado pelo aparelho que dera sorte de meus pais não terem levado. – Acho que ficaria bem na minha sala. Não é que tem o tamanho exato da estante? – continuou medindo-a com as palmas grossas das mãos.

O homem mais alto saiu pela porta nos deixando a sós.

- Vou esperar lá fora, H.
O mais baixo fez um “ok” com os dedos, e continuou a tagarelar deixando escapulir um sorriso malicioso:

- Se não precisar mais dela poderíamos fazer um negocinho. O que acha? Você precisa de eletricidade e eu preciso de uma TV. É justo?

- Mas se alguém descobrir?

- Tome meu cartão, - respondeu. – Se tiver problemas é só ligar.

Fiquei calculando se valeria a pena. Arrumar um emprego naquela altura seria complicado, além disso poderia demorar até pagar a conta de luz. Mas se o homem levasse minha TV talvez demorasse mil anos até conseguir comprar uma igual. Então encarei aquele olhar franco e o sorriso amarelo com um dente prateado no meio. Ele estendeu a mão para apertá-la.

- Geralmente nós cobramos caro por esse serviço. É uma oferta de ouro.

- Eu não tenho certeza...

- Eletricidade de graça para sempre. É pegar ou largar.

Judas voltou da pequena varanda carregando o pote de comida na boca. O homem tentou fazer festa na cabeça do cão, mas ele farejou-o de volta e se afastou, rosnando desconfiado.

- Vai economizar uma nota preta pra ração.

Judas se meteu entre minhas pernas e latiu. Apesar de não me sentir confortável trapaceando, era um fato que não havia dinheiro na carteira e a conta bancária estava zerada. Teria que pedir emprestado a um amigo e sempre odiei pedir emprestado.

Acalmei Judas afagando sua cabeça e o conduzi para o quarto. Depois decidi pelo mais conveniente à dificuldade. Apertei a mão do homem baixo e disse:

- Pode levar a TV. Mas o senhor me garante que ninguém mais vai me dar problemas.

Ele abraçou o aparelho sem me dar atenção.

- Sr. G! – gritou para o colega. – Pode vir me ajudar? Fechei um negócio aqui.

O homem alto e trôpego retornou. Teve de se ajoelhar para pegar a TV e carrega-la para fora sem a necessidade do outro. Mas o baixo insistiu em ajuda-lo. Parecia obcecado pela TV. Depois voltou à cozinha para repor a peça da caixa de afiação. O ventilador voltou a funcionar, mas o sopro não me trazia nenhuma sensação de alívio.

- Até mais, garoto, - disse se dirigindo à porta. - Não perca o nosso número. Qualquer problema, ligue.

- Sim-sim. Eu, eu vou ligar, - respondi cumprimentando-o. Os calos eram duros como casco de tartaruga. Segurei uma careta quando senti a coisa áspera.
Foram necessárias apenas poucas horas para esquecer da fisionomia dos dois. Deitado no sofá, acariciava Judas no colo e imaginava em vão um programa de TV enquanto observava o vazio sobre a estante.



Acabei adormecendo por algumas horas. Acordei faminto na quase completa escuridão do fim de tarde.

O telefone tocou ao lado da poltrona, e o som me fez sentir alívio. Ainda não haviam desligado por falta de pagamento.

- Alô? – disse a voz conhecida assim que atendi. – Filho, já arrumou um emprego?

- Não mãe.

- Você não saiu ao menos de casa hoje, não é?

Fiquei mudo.

- Preste a atenção, filho. Seu pai e eu não podemos mais assumir suas responsabilidades. Seu primo Hen. conseguiu seu primeiro emprego com apenas 14 anos e com 17 já tinha uma casa, um carro e se casou. Está me ouvindo?

- Estou, mãe.

- Filho, estou cansado de repetir essa história. Na verdade eu liguei por outro motivo. Amanhã vai estar em casa?

- Não sei.

- Porque devemos mandar alguém para pegar a TV, - meu estômago fervilhou e congelou ao mesmo tempo. – Não sei se o seu pai irá ele mesmo. Já trouxemos tudo que precisávamos, mas ele cismou que a imagem dessa TV era melhor. Então? Que horas podemos chegar?

- Não vai dar, mamãe, - respondi mamãe porque sabia que ela adorava ser chamada assim. - Amanhã tenho uma consulta marcada com o dentista. Depois de amanhã também não. Vou ir a uma entrevista de emprego.

- E onde será essa entrevista de emprego? – perguntou em tom desconfiado.
A primeira coisa em que pensei foi no cartão que o homem havia me dado.

- Companhia de luz.

- Luz? Ok. Qual cargo?

- É pra trabalhar como auxiliar. Auxiliar de ferramentas, de...

- E o que faz um auxiliar de ferramentas de...?

Minha mente estava emperrada. E Judas começara a se agitar no meu colo.

- Mamãe, me desculpe, mas tenho que desligar. O cachorro está rasgando o sofá, - menti. - Depois nos falamos. Até... até daqui a três dias!

Pus o telefone no gancho e me joguei sobre as almofadas. A imagem do meu pai me expulsando de casa e eu tendo que dormir nas praças pululou na minha cabeça.


- Cara, tô ferrado, - concluí, enquanto Judas tentava lamber meu rosto.

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