sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Lucas e seu livro, Abaixo das nuvens


Certa noite eu conversava com um amigo no hall da universidade. Ele se virou de repente e disse:

- Jonatas, tive uma ideia legal para um livro.
- Qual é, Lucas? – perguntei.
- É sobre um futuro decadente. Basicamente uma distopia em que pessoas vivem isoladas em torres interligadas por realidade virtual.
- Legal cara, e já tem algo escrito?


Em torno de sete meses depois a história estava escrita, e o editou por mais três meses para ser publicado no ano seguinte pela Editora Dracaena.
Comprei uma edição autografada e de cara adorei a capa. Li bem mais rápido que o costume. O texto era fluido, atendendo ao gosto pela dinâmica narrativa. 

A ambientação da trama era bastante atraente para aqueles que, como eu, apreciam uma atmosfera pós-apocalíptica. Em certos momentos me lembrou as paragens ermas de Fallout e as dunas mortais de Mad Max, onde a pequenas populações sobrevivem sob a lei da barbárie e escassez no meio do deserto. O aspecto da natureza bastante sombrio, ainda mais devido aos céus tomados por poluição.

E para intensificar mais o clima psicologicamente hostil, o único lugar de relativa segurança são as cidades-torres, onde os habitantes vivem de maneira cômoda e controlada, mas o relacionamento social e a vida pessoal são reduzidos a interfaces virtuais e redes nas quais todos interagem por meio de avatares. E nenhum desses serviços é barato, acredite.

De todas as qualidades da história, a que mais me chamou a atenção foi realismo da vida que levam num mundo que “seguiu adiante”. As cenas são coerentes e cruas. E para os que preferem um enredo de perseguição, solução de intrigas e traição, Abaixo das nuvens não fica para trás.

Dos dois livros de Lucas que foram publicados eu li apenas esse e gostei muito. Além deste, Lucas publicou O espetáculo de Grimnlaud (sim, ele escreveu o primeiro com 16 anos) e foi selecionado comigo para a antologia Espada e Feitiçaria, da Editora Buriti, para publicar o conto A história de Como Mephisto IV, o Necromante, Foi Derrotado. O conto Demiurgo sairá pelo selo Átame, da Editora Oito e Meio e o conto de horror Auspício recebeu menção honrosa de melhor ambientação no concurso DTRL 24 do site Recando das Letras.

Atualmente terminou um livro de aventuras que não posso ainda dizer o nome, mas o tema é magia e labirintos. Esperamos que em breve seja publicado para que possamos tecer uma resenha por aqui.
Além de colega de estudo e amigo pessoal, também é companheiro de escrita no grupo de produção textual que compomos na universidade e ótimo pianista. Em breve estarei postando comentando seu canal e divulgando os projetos da galera do grupo.

Abaixo segue os links com mais detalhes sobre as obras e ele ainda possui algumas edições já esgotadas nas livrarias. Quem desejar um volume, entrar em contato pelo email: 

lucasmcarvalho2015@outlook.com

http://livroabaixodasnuvens.blogspot.com.br/
http://grimnlaud.blogspot.com.br/
Fanpage: https://www.facebook.com/AbaixoDasNuvens

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

De Ádia e sua casa

"Minha mãe contava que sempre sonhara comprar aquela casa quando criança. Senhora Ádia, dizia ela, vivia lá. Era toda feita de paralelepípedos esbranquiçados, robusta, de cômodos profundos e telhado a molde galego. O porão era feito de intermináveis dez degraus talhados adentro e se sabe lá onde terminavam. Maravilhava-se com a possibilidade de ser profundo o suficiente para se passear se fazendo o mar tecido de céu. Andar pela residência era como explorar algo tão antigo que ainda possuía uma robusta lareira no meio da sala, dos tempos em que se via gelo e as guerras não haviam chegado ao país. Minha mãe achava que  Senhora Ádia queria para ela uma das crianças que brincavam por lá, acho que o irmão adotado de minha avó.

Também me dizia que a casa deveria ser o marco inicial por onde as pessoas passavam para entrar na cidade. Senhora Ádia permitiu, de boa vontade, que construíssem a rua cruzando o terreno de sua propriedade frente do outro lado ao que seria uma marmoraria, transformando metade de todo o lugar em passagem. Era parte do sítio que se perderia definitivamente quando os homens selassem a terra úmida com asfalto e alcatrão. A estrada federal ainda não existia naquele tempo em que os dias não tinham muros e, se quisesse perseguir alguma direção, era o horizonte quem nos dizia para onde ir.

Minha mãe costumava visitar diariamente a casa e achava engraçado o jeito como o assoalho revidava ao pisar na sua superfície lustrosa, tão polida que parecia ter outra criatura pisando zombeteira do lado oposto, em baixo de seus pés.

Senhora Ádia se mudara depois que o marido morreu, deixando solitário o vazio da casa lítica. Mamãe recordava das hemoptises diárias saindo pela boca do homem. Ela me contara que aquele senhor acreditava que os fósseis incrustados nas rochas que constituíam as paredes era a forma como os minérios de pedra expressavam seu desejo de serem criaturas vivas. Por inveja, as pedras imitavam monstros ancestrais, que os medievos criam ser obra deixada pelo demônio para confundir as pessoas ou, talvez, as primeiras tentativas de se criar vida para povoar o mundo."


(Este conto faz parte de uma coletânea de texto que escrevi há uns três anos enquanto jogava video game e ouvia minha tia conversando com minha mãe sobre a infância. Tem alguns outros no Widbook que estão esperando com ele para fermentar. Lá também tem a versão não censurada De Ádia e sua casa. https://www.widbook.com/ebook/musicadasesferas)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Um pouco sobre blog Scripta mea

Por volta de 2011 tive a felicidade de encontrar amigos que também escreviam. E como se não pudéssemos evitar, em pouco tempo começamos a nos reunir com certa frequência, e da frequência nasceram diversos projetos atualmente em curso. Dentre eles hoje ressalto os contos urbanos que publicados no blog Script Mea (aviso que talvez você considere o teor de alguns textos mais adultos).

Respondendo à sua pergunta do que tratariam suas histórias, eu diria que seu texto é uma atmosfera dinâmica de encaixes, mecanismos e jogos que de algum pode ser nosso próprio mundo. A impressão que tenho é de uma leitura por vezes fantasmagórica, mas solúvel como chocolate em pó na água de tão tênue. De situações absurdas como uma velhinha presa em porta giratória de bancos por causa de próteses de metal (sim, o banco exige que as tire) a relações humanas reduzidas a aplicativos de encontro amoroso, - são alguns dos ambientes explorados pela narrativa de Scripta Mea.

Aqui está uma pequena amostra do conto Praça dos sobreviventes:


“Saindo do portão gradeado e alto da escola, há uma praça que fica em frente, a uns dois metros, de uma igreja que abre às seis da manhã, cujo sino não toca mais. A praça está sendo revitalizada pela prefeitura que está revitalizando quase tudo. Plantam mudas de árvores, colocam brinquedos na praça. Novos bancos, novas mesas com tabuleiro pintado de xadrez fixo com peças indisponíveis.

Desculpe o incômodo.

Meio dia e meia. Sinal de evacuação. Impedem as crianças de brincar nos novos brinquedos, ainda não foi reinaugurada a Praça Vale das Amoreiras que receberá novo nome, Praça dos Sobreviventes, em homenagem a não se sabe que sobreviventes nem a que sobreviveram.”



Para aqueles que quiserem apreciar a leitura, o endereço é :
http://scriptamea.blogspot.com.br/
E a resposta é sim, ele sabe latim, e não, não vou dizer seu nome. Ele tem muitos (uuuuuh medo).

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O sorriso de uma história


Eu não sei quanto à maioria das pessoas, mas coisa que aprendi com minha família é o quanto às vezes terríveis nós somos com quem amamos. Odiamos quase sem perceber que não há motivo, como se fizéssemos uma fogueira para sufocar na fumaça dentro de nós. E por mais que reconheçamos tais coisas ruins e tentemos mudar, sempre há algo delas se escondendo mais e mais embaixo, num canto sujo e embolorado da alma.  

A segunda coisa que aprendi é que apesar do canto escuro e todas as coisas ruins guardadas nele, existe uma torre muito alta, e sobre essa torre existe um mastro ainda mais alto que não chega a tocar o céu, mas chega bem perto, e reflete a luz que o torna azul. Essa é a parte em nós de onde vem as coisas boas, que nos fazem dar um abraço de verdade, dar um beijo de verdade em quem amamos, - e por que não em quem não amamos? E em cada pessoa essa luz aparece de formas um pouco incomuns.

Há muito tempo eu andava com constância naquele lugar escuro. Passava a maior parte no canto com raiva ou rindo dos outros, e isso me fazia escrever apenas coisas bem ruins. Porém, um dia encontrei uma criança alegre e lembrei de que quando eu mesmo era criança tinha aquele lugar lá no alto.

A criança diante de mim não para de pular de um lado ao outro trepando num sofá que fingia ser uma montanha e, de repente, perguntou porque meu olho estava tão bravo. Eu expliquei que era um anão de pernas tortas que tinha perdido meu tesouro e estava com muita fome, e conforme eu contava aquela história e ela sorria, meu espírito também sorria, se inflava como um balão e flutuava de tão leve.

Por isso e por mais nada estou aqui, não perdido nas nuvens, esquecido de que ainda existe o canto terrível com as coisas feias tentando me puxar de volta como uma mão enrugada e murcha para debaixo da cama, mas sei bem em que lugar do mapa de mim hoje estou. E a melhor bússola para continuar adiante é escrever para sentir, e sentir o sorriso de quem ouve minhas histórias.