domingo, 18 de dezembro de 2016

Em honra




"Nossa vida é escrita e reescrita continuamente, como um sonho do qual despertamos sem saber que estamos em outro sonho, em camadas sucessivas, sem fim. Apesar de a escolha do caminho de tal campo onírico depender da dimensão de nossa vontade, há certa grandeza indeterminável que nos assalta de surpresa, coisas tão óbvias como a perda de pessoas que amamos.

Desculpe-me se não trato hoje do que de fato deveria falar: o livro que estou lendo, algum museu ou parque que visitei, músicas favoritas e comoventes, filmes interessantes etc. etc., mas não sou capaz de distinguir a arte que aprecio da vida que me atravessa, como sempre me ensinou um grande amigo que perdi esta semana. Segundo ele, nossos sonhos estão em um contínuo crescimento, uma ave que sobe infinitamente por um céu de um azul que nunca se acaba, ou um peixe que submerge e submerge sem nunca conhecer os limites da escuridão do mar. “Jonatas,” ele repetia. “O sonho sempre aumenta, ele sempre aumenta”. Confesso que nunca compreendi bem o significado daquilo. Quando me encarava com aqueles olhos arregalados da extensão do horizonte e sorriso de uma criança que acabou de descobrir o motivo de o céu ser azul, eu apenas concordava. Sempre me impressionava com a forma de meu amigo dizer, talvez por entender que ele também se impressionava com a minha própria forma de dizer as palavras. “Jonatas”, repetia depois de dar um tapa nas minhas costas. “Você é muito maluco”, e ria um riso que passava pouco do seu interior, como se ecoasse água em uma caverna sem fundo.



Acho que meio que percebia algo de familiar no reflexo daqueles grandes olhos de Buda. Talvez fosse isso que ele quisesse dizer. Cada vez que voltávamos para casa naquele largo trecho de estrada que o ônibus percorria, talvez estivéssemos, de certo modo, um crescendo nos olhos do outro. Não sei. Não tenho certeza se era como ele afirmava, se estávamos crescendo, se o sonho estava aumentando, mas atesto que além de dois caras voltando para casa, éramos rastro meio consciente de nossos próprios sonhos.

Sei que conjecturar aqui não é tão pertinente e adequado, mas Gulever me mandaria aos infernos se me abstivesse de me expressar o que desejo por causa de mera formalidade. Então, em honra a ele, digo: creio que seja a inevitabilidade da morte, essa é a palavra, que a inevitabilidade da morte seja outra misteriosa dimensão de grandeza à vida. Ela nos revela a certeza da eternidade, e há uma grande chance de jamais saber o porquê, nem mesmo depois de minha própria morte eu vá saber. Enfim. Tenho certeza de que Gulever gostaria muito de ouvir isso. E de certo modo, ouvir isso de mim mesmo é como se ele ouvisse. Você sabe. É impossível que se vá a parte dele que eu guardei aqui, dentro de mim. Estamos no mesmo sonho. Não há como fugir. É tão repetitivo. Tão verdadeiro. Renova-se e se releva tantas e tantas vezes. Fico feliz em saber de tudo disso."


Publicado originalmente no dia 11 de dezembro de 2016, no blog Papel Papel.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 6 ’Estrada da noite'

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O carro percorreu a estrada. Passamos por um parque em meio a vilas e residências mais ou menos antigas. O cimento se desfazia deixando exposto os tijolos vermelhos. Adiante, havia uma praça rodeada por estabelecimentos comercias e uma estátua em homenagem a uma mulher e seu filho no centro protegidos por um cercado de madeira. Nunca prestei a atenção naquele lugar. Acharia bonito se não estivesse paralisado e pensando sobre o que havia acontecido com o ajudante anterior. O motorista parecia se divertir.

- Oh, não se assuste, amigo, - comentou, manejando o volante com os cotovelos e terminando o último pedaço de sanduíche. - Se tudo der certo, você nunca mais vai precisar se preocupar com dinheiro.

- Como assim? – perguntei.

- Você vai ver.

Encolhi os ombros e afundei no assento. Comecei a imaginar se o trabalho se tratava de assaltar bancos, ou contrabandear arte e objetos caros de museus. Talvez tráfico de órgãos para exportação. Pensei por tanto tempo se deveria pular do carro em movimento que não percebi a paisagem se tornar diferente de todas as regiões da cidade que tinha frequentado. Provavelmente estávamos na parte de residências médias. As casas eram maiores e mais confortáveis que a maioria dos cubículos de condomínio. Achava o lugar estranho porque fazia tempo que não passava por ali. Desde que era criança, na época que ainda tinha coragem de arriscar longos passeios até o trecho mais esburacada da rodovia. As pessoas evitavam passar por ali. Era conhecido como o bosque-com-caminho e conduzia para a região onde não havia nada mais do que algumas fábricas abandonadas, até onde eu sabia.

- Se não piscar o olho quebra, - ele disse.

- O quê?

- É uma brincadeira de criança. Se não piscar o olho quebra, nunca brincou?

- Não saio muito de casa. 

- Entendo – disse, se concentrando mais no volante.

Suspeitei que ele estivesse percebendo meu nervosismo, então meti a mão nos botões do aparelho de som tentando aparentar tranquilidade, e disse.

– Posso ligar o rádio?

Ele cobriu com a mão espalmada. Quando toquei, me pareceu feita de madeira.

- Melhor não, - olhou para os lados. - Não tem música boa essa hora. E o toca-fitas não está funcionando.

- Não sabia que fabricavam toca-fitas.

- Esse carro é antigo.

Passei o dedo sobre o painel lustroso.

- Parece bem novo. Eu ia te perguntar como conseguiu consertar tão rápido. É o mesmo carro, não é?

- É sim. O seguro cobre tudo.

Ficamos sem nos falar por um bom tempo. Não tinha sinal daquelas aves esquisitas no céu e ainda estava escuro. Olhei para o relógio. Os ponteiros oscilavam. Todos marcavam doze horas.

- Ei, cara. Meu relógio está maluco. São quantas horas no seu?

Os ponteiros do relógio embutido no painel do carro tremiam sobre o número doze.

- Não é nada, amigo. Os relógios ficam pirados quando passamos pela Estrada da Noite.

Fixei os olhos na estrada escura e esburacada que rolava debaixo do carro. Ele sorriu um pouco sem jeito e jogou a garrafa de suco no meu colo e disse.


- Foi minha mãe que fez. Está ótimo. Pode matar. 


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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 5 ’Companhia nas árvores'


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A neblina densa cobria a rua e obstruía a visão de um lado a outro. Eu estava de pé no ponto de ônibus. Nenhum carro trafegava havia dez minutos por ali. O silêncio causava a impressão de que um fantasma passaria flutuando sobre a calçada a qualquer instante. Cobri a cabeça com o gorro do casaco e esfreguei minhas orelhas com as mãos frias. Conferi as horas no relógio com dificuldade pelo vidro embaçado. Os ponteiros marcavam quatro e quatorze.

- Ótimo. Acordei cedo para ficar parado igual a um idiota aqui, - resmunguei. – Pelo menos não está chovendo.

Então, como se uma nuvem perversa estivesse me ouvindo, uma gota caiu no meu ombro.

- Maravilha...

Bem ao longe, além do rio e da estrada, a parte comercial da cidade se erguia com muitos prédios de aço e vidro. Cinco avenidas cintilavam a ponto de parecer sempre dia. Ainda assim não era suficiente para ofuscar as estrelas. Olhei para o alto. Notei os estranhos pássaros iam e voltavam silenciosamente de uma árvore a outra.

As nuvens estavam espalhadas e não havia sinal de chuva. O que não fazia sentido, pois senti um segundo pingo no topo de minha cabeça. Passei a mão para ver se alguma ave tinha me deixado um presente sujo. Se algo havia caído, evaporou no mesmo instante. Não achei nenhuma sujeira. Tornei a olhar para o alto. A próxima coisa caiu dentro do meu olho. Esfreguei nervosamente com os dedos. Novamente, não encontrei nada. Antes que gritasse algum palavrão às aves, uma enxurrada se chocou contra meu corpo. Disparei em direção ao abrigo do ponto de ônibus, mas a coisa parecia atravessar a marquise de pedra e me acertava sem parar.


Irritado, resolvi voltar para casa, e rápido. A cada árvore que passava, eu me encolhia sob copas para saber se as gotas cessariam. No quarto pinheiro que ficava antes do condomínio Vésper, não senti pingo algum.

- Que coisa doente, - gritei.

As aves estavam todas aninhadas nas árvores ao redor, exceto sobre o pinheiro. Eu vou entender perfeitamente se você não acreditar, mas posso jurar que estavam reunidas num círculo, todas viradas para mim, me espiando e cochichando. Evitei de toda forma os seus olhos redondos e negros. Fixei minha atenção no movimento do ponteiro que marcava os segundos.

Ao longe, um par de faróis brotou reluzindo no nevoeiro. Era a van que vinha roncando suavemente. Estava nova em folha. Não havia um arranhão sequer. Nem parecia ter se espatifado contra a pilastra dois dias atrás. O freio chiou como um gato moribundo antes de subir o meio fio. O rapaz abriu a porta do carona, me encarou de olhos sonolentos e disse:

- Tudo bem, amigo? Está com uma cara de diabo assustado.
 
- Estou bem. Acho, - olhei para os lados parecendo idiota. – Foi só uma coisa, estranha. Um monte de, não sei. Caiu no meu rosto. Ah.

- Pode explicar no caminho.


 Entrei cuidando para não sair da proteção dos galhos. Nenhuma gota me atingiu. Ele pisou no acelerador. O carro cambaleou pela rua e adentrou a névoa. Baixei o gorro e olhei para o retrovisor ao meu lado para ajeitar o cabelo bastante embaraçado. Um vulto negro, rápido como um raio cortou o reflexo por trás do veículo. Cuidadoso, olhei pela janela e as avistei sobre as árvores. Pulavam silenciosamente de galho em galho sem vergar ou derrubar uma folha. Seguiam a direção da estrada. Pus a mão em concha ao redor dos ouvidos. Não faziam barulho. Era como se fossem tão leves quanto vapor. Girei a manivela até fechar completamente o vidro e afundei no assento de braços cruzados.

- Você está sério, - disse o rapaz. - Algo errado?

- Nada. Acho que só não tenho dormido bem ultimamente.

Ele pegou um sanduíche com uma boa porção de frango e uma garrafa com suco com a outra mão. Abriu a tampa usando os dentes. Ofereceu um pedaço para mim, e, enquanto mastigava, falou algo que me deixou desconfiado:

- Então é bom se preparar. Esse trabalho exige bastante. O meu último ajudante não suportou. E morreu. Então, é bom ficar atento para não cair no sono. Você consegue.

- Acho que sim, - respondi de olhos arregalados.


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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 4 ‘Oferta obrigatória’

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O leitor digital marcava onze e vinte. A sala estava completamente bagunçada. Driblei uma caneca com resto de café, embalagens de barra de cereal e um monte de guardanapo usado que meu hóspede não conseguira acertar na lixeira.  

- Mas que miserável... - resmunguei, empurrando a base do móvel e dobrando as juntas. -  Nem pra montar o sofá. 

Judas farejou algo próximo à mancha de manteiga. Um bilhete. Havia uma nota de cinquenta embrulhada na folha. Quando peguei, acabei sujando meu dedo com uma gota de molho barbecue na ponta do papel.  



- De onde diabo esse cara tirou barbecue? – disse, lembrando da geladeira vazia. 

Guardei o dinheiro no bolso e comecei a ler. A caligrafia parecia escrita por uma criança com um giz de cera. Demorei até conseguir decifrar.  

“Amigo. Não consegui agradecer. Mas, tenho um presente. Tomei a liberdade de dar uma olhada na sua casa. Rapaz, você está bem ferrado. Estou tendo uns problemas na empresa. Meu ajudante morreu há uma semana, então, trabalho  por dois. Gostei do seu perfil. Quero que trabalhe pra mim. Passo aí amanhã. 4h. Pode usar qualquer roupa. Tem que ser modesta, não pode chamar atenção. Deixei cinquenta pratas pela sujeira. P. S.: Você realmente me enganou. Achei que ia ligar pro hospital e chamar sua amiga enfermeira”. 

Lembrei da noite passada. O telefone caído no chão, fora do gancho. Enquanto afastava a carta suja da língua de Judas, girei o disco numerado com o fone apoiado no ombro. Até cansar. A operadora havia cortado o serviço de telefonia por falta de pagamento. Bati o fone no gancho. 

Aquele sujeito era bem estranho. Mas não tinha outra opção. Não agora. Avaliei se valeria a pena. Fiquei pensando que tipo de trabalho aquele cara fazia, se era trabalho pesado. Fui até a cozinha pegar resto de pizza na geladeira. Era o último pedaço. Meus pais viriam no dia seguinte pegar de volta a TV que o sujeito da empresa de energia elétrica havia levado. Dividi a pizza e dei a metade para Judas. 

- Não tenho saída, amigo.  

Deitei no piso gelado e abracei meu cachorro. Enquanto imaginava como seria o trabalho com aquele sujeito, deixei os olhos bem abertos. Evitava fechar. Toda vez que apertava as pálpebras, tinha a impressão de que uma manchinha verde, bem pequenina, aparecia lá no fundo. Igual à queimadura que fica no olho por um tempo depois de olhar direto para o sol. Mas ao invés do sol, era mais como um farol, um farol de locomotiva, uma locomotiva com uma garota conduzindo feito louca na minha direção.


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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 3 ‘Quando se houve o som da locomotiva'

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Meu corpo estava cansado. O sono não chegava. Permaneci deitado, rolando de um lado a outro da cama. Era o cartão. Aquele maldito cartão com o trevo bordado. A mesma sensação de olhar para a folha que a garota mal educada deixara na plataforma. Sentia coceira bem no lado em que guardava o trevo. Mas hesitei. Cruzei os braços ao redor da barriga e fitei a teia de aranha no teto. Nunca ficava totalmente escuro. Os refletores da rua eram tão fortes que a luz escapava pelas laterais das persianas.

Mal passaram dois minutos e minha mão deslizou pela calça. 

- É melhor tirar isso, - afrouxei o cinto e arremessei a roupa no canto. – Está  quente mesmo.

O rádio-relógio marcava duas e trinta em leds vermelhos. Judas produzia ruídos estranhos enquanto respirava. Bati nele com o travesseiro três vezes. Desisti na quarta, quando rosnou. Dificilmente tentava me morder, mas o pobre bicho parecia bem tenso, provavelmente por ficar encerrado tanto tempo no quarto.

- Tudo bem, cara. Não vou mais fazer isso. - Ele parou o grunhido.

Não era comum, mas, ás vezes, no meio da madrugada, dava para ouvir o apito do trem bem longe. Eu gostava daquele som. E acredito que a maioria das pessoas que não crescem muito por dentro também gostem. Era difícil viajar de trem. A escola e o emprego dos meus pais eram todos próximos de casa. Mal me aproximava da estação. Talvez por isso me sentisse tão atraído pelo barulho.

A ferrovia ficava a meia hora de caminhada do condomínio. Fora construída há um ou dois séculos atrás. Era utilizada principalmente para abastecer toda a costa da península leste com suprimentos de comida e arma. Alguma coisa a ver com a guerra civil de muito tempo atrás. Por ali, onde eu morava, desde aquela época foi uma espécie de ponto obrigatório de parada. As casas mais antigas foram construídas próximas da estação. Eram bem espaçosas, faziam parte de antigas fazendas, agora extintas. Morava um monte de família rica que tinha sobrenome suficientemente extenso para se manter afasta dos vizinhos.

Eu morava na parte sul da cidade, (próxima a uma vila que ninguém se importava muito em saber o que se passava, e que ficava mais ao sul ainda). A minha casa estava em uma região não tão antiga, ocupada basicamente por condomínios construídos para gente não tão pobre e nem tão rica, a uma distância considerável do centro comercial.

Tentei adivinhar de qual lado da cidade aquela garota viera. Vestida daquela maneira estranha, não parecia ser de nenhum lugar conhecido. Era um jeito bobo de se vestir. Principalmente pelo cabelo. Não era comum adultos continuarem com aquele hábito de criança, de pintar o cabelo com cores berrantes. Dificultava a beça arrumar um emprego. Conseguia lembrar perfeitamente do tom colorido balançando na plataforma de embarque. Se fosse uma anã de verdade seria bem engraçado. Poderia ter saído de um circo.




Foto: tebielyc

O apito tocou novamente. A princípio achei que o som da locomotiva estivesse mais alto, como se o maquinista puxasse a corda com mais força. Nunca ouvira com tanta clareza. Apertei as pálpebras para me concentrar. Os olhos doeram de tão escuro. O assovio soou outra vez. Não estava mais alto, eu me enganara. 

Estava mais perto.

Sentei e olhei para trás. Uma luminosidade esverdeada se infiltrava entre fendas mínimas das persianas. A janela parecia ladeada por lâmpadas de esmeralda. Judas continuou deitado, rocando. Não moveu um palmo, mesmo ao som de rodas mastigando trilhos cada vez mais próximo.

Minhas costas gelaram, e o frio arrepiou até o topo da cabeça. Achei que a coisa estivesse atravessando a avenida, e logo fosse chocar contra o frente do apartamento. Fiquei em pé sobre a cama. Tropecei nos lençóis enquanto me dirigia à janela. A respiração sufocava e ardia, como se engolisse cubos de gelo inteiros.

Hesitei abrir. Imaginei a garota de cabelo colorido dirigindo a locomotiva, o sorriso enlouquecido. O dedo do meio apontando para mim. Pus as mãos entre as lâminas da persiana. Não conseguia mover nenhum centímetro. A luz ficou forte, e mais forte na medida que o barulho aumentava. Foi quando o quarto submergiu todo em verde faiscante. Mesmo com os olhos fechados, os raios atravessavam as pálpebras.

- Tudo bem! – gritei correndo para pegar a calça. – Eu entendi! Eu entendi!

Caí de rosto no chão. Arrastei a barriga até encontrar a roupa. Tateei o bolso. A folha estava no mesmo lugar. Retornei para a janela com ela nas mãos, mas era tarde. A cama começou a estremecer. O ventilador de teto girou tomado por uma corrente invisível. As persianas sacolejavam. Uma brisa agitou minha franja. Recordo que fiz a única coisa que me ensinaram em circunstâncias assim: ajoelhei e comecei a rezar.

Não sei se já aconteceu com você, de não ter certeza se um sonho foi de fato um sonho . As pessoas têm dificuldade para lembrar a maior parte do próprio passado, não me surpreenderia se também confundissem acontecimentos reais com sonhos. Foi assim comigo. Ela não me disse depois. Não me disse nunca.

Mas, apesar da dúvida, quando Judas me despertou com lambidas no rosto, notei que não vestia as calças. E minha mão estava dormente. Sentia falta do trevo, como se marcada em brasa.

- Sai, garoto! – gritei, afastando-o do meu rosto.

Investiguei debaixo dos lençóis. O trevo estava bem ali, ao lado do travesseiro. Não era um cara supersticioso, mas, por via de dúvidas decidi nunca mais andar sem a folha. Certamente não andaria com aquilo pela sorte que os trevos prometem, mas pelo azar que me acompanharia dali para o resto de minha vida.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 2 ‘Cartão de visita’

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Não sei por que diabo não chamei a polícia. Ou, então, não joguei aquele cara no banco carona e comecei a dirigir para o hospital. 

A lataria do carro havia amassado bastante, mas os eixos das rodas estavam perfeitos. Percorri as quadras restantes com facilidade. Na verdade, estranhei o fato de que um veículo pesado como aquele fosse tão fácil de dirigir, quase como se tivesse vida própria.

O zelador me ajudou a carregar o rapaz até meu apartamento. Abri o sofá-cama, forrei o tecido manchado com lençol e arrumei um travesseiro. Judas rosnou para ele. Foi necessário prender o bicho no quarto. Eu conhecia uma enfermeira, velha amiga de escola. Pensei em pedir informações sobre cuidados médicos. Sentei-me na ponta da cama. Pus o telefone no ouvido. Girei o disco numerado. Imediatamente a ponta do tênis tocou minhas costas.

- Amigo, não foi tão grave, - resmungou o rapaz. – É só tirar um cochilo que já estou novo, - ergueu os braços e girou. Estava um pouco arranhado. Nada demais. – Viu? Sem ferida.

- Você desmaiou. Pode ser uma concussão, ou coisa do tipo.

- Essa cabeça de bigorna? – ele forçou um riso, circulando o indicador na extensão do próprio crânio. Se não apontasse, eu nem notaria a desproporção, devido à largura dos ombros e ao resto do corpo. – Só preciso de uma aspirina. 

- Onde você mora? Posso ligar pra sua família. 

- Moro sozinho. E tenho que trabalhar amanhã.

- Qual o telefone do trabalho. Posso avisar que você sofreu um acidente.

Insisti, movendo o disco do telefone outra vez. Ele tentou se levantar. Mas cambaleou tendo que se apoiar sobre o cotovelo dobrado.

- Agradeço, amigo. Mas não. Não posso faltar ao trabalho. 

- Que coisa horrível.  Trabalho escravo isso?

Judas latiu ao ouvir minha voz. Em seguida, começou a arranhar a porta. O rapaz arregalou os olhos. Tentei acalmá-lo:

- É o cachorro. Ele não morde. 

Ele pôs as mãos com os dedos cruzados atrás da cabeça e voltou a se deixar apoiando a cabeça no travesseiro.

- Esperamos que não.

A pausa durou um minuto. Ele, encarando teto, eu, com as sobrancelhas arqueadas.

- Então? – perguntei.

- Uhm.

- Onde você trabalha?

- Olha. É muita bondade sua. Mas eles vão me demitir.

- Não é contra lei? Digo. Você sofreu um acidente. Não consegue nem se levantar.

- Não tem problema. Eles pagam bem, - afofou o travesseiro e fitou por um longo tempo o ventilador pendurado como se fosse feito de ouro.

A curiosidade me cutucou. Pensei em perguntar sobre o valor, ponderei. Poderia ser falta de educação. Quando mudei de ideia, ele mal fechou os olhos e um ronco de descarga subiu pela garganta. 

Seu tênis estava bastante sujo. Tirei-os antes que esfregasse a sola contra o lençol. Ele rolou para o outro lado, deixando a carteira cair do bolso. Era necessário saber que tipo de cara eu trouxera para casa. Não julguei fazer mal em pegar e olhar um pouco. Procurar alguma pista. 




Tinha um maço de notas de cinquenta e cem no vinco principal. No vinco menor, havia uma foto dobrada. Uma van extravagante, exageradamente colorida com o teto adaptado, estacionada de frente a uma bela praia paradisíaca. Não identifiquei exatamente o lugar, mas devia ser uma ilha desconhecida em algum lugar perdido do Índico. A letra ‘F’ marcava a borda em vermelho, bem acima da prancha de surf. Parecia um recorte desses panfletos com anúncios de viagens. 

Tateei a parte onde deveria guardar as moedas. Não havia nada. Mas senti algo por baixo. Um relevo. Mexi até encontrar a abertura para o compartimento secreto. Puxei a minúscula braguilha, e, então, surpreso, abri a boca num perfeito ‘Ó’. Com os dedos em pinça, tirei uma peça na forma de moeda. Era feita de pedra brilhante, certamente valiosa. Tentei ler as inscrições na superfície, mas não era nenhum alfabeto ou símbolo que conhecesse. Aquilo deveria estar guardado num cofre, pensei. 

Procurei por mais peças. Encontrei algo bordado, um desenho que consegui decifrar. E que me fez a espinha gelar mais que um freezer. Puxei um pedaço de couro no formato de cartão de visitas. O símbolo bordado era um trevo. Esfreguei os olhos até doerem. Tornei a analisar o cartão. Virei para trás e encarei a estante, olhei pela janela sobre o sofá-cama, tornei atentamente a ilustração. Estava turva, como o trevo da garota. Não sabia dizer se problema era com o bordado ou com minha visão. 

- Três ou quatro folhas? – balbuciei. 

No verso, não havia número de telefone. Apenas uma inscrição em letras douradas, grandes e simples:


4ª FOLHA S.A.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Oráculo de nuvens

A última colheita da tarde já havia levado o sol, pensei. Apaguei as lâmpadas de filamento e fechei a janela para dormir. Todavia, um vento frio, nascido no extremo ocidente, soprou nuvens sobre toda a extensão dos campos que cobriam minha casa. Fui lá fora e vi. Nuvens altas. Nada se escondia delas, ainda que se refugiassem além das muralhas do horizonte. Naquele instante as nuvens podiam revelar o leito do sol. Sobre os brancos rostos brilhava o tom adormecido daquela estrela.


Naquela tarde, deitei sobre o campo, fiquei com a cabeça voltada para minha casa, - uma construção de alvenaria erigida desde as fundações da terra, a mesma terra em que meu pai e meu avô pereceram. Enterrei seus ossos e ergui uma cruz. Toda a aquela extensão, por um instante, foi coberta pelo bronze de nuvens. O solo absorveu o tom cinzento, transformando-se na face de uma moeda, e as folhas das plantas menearam para o norte e para o sul. Imaginei se fora aquilo  que avistavam os antigos artesãos que deixaram as visões gravadas no teto da Igreja, ou esculpidas na rocha que lajeia o Forte.

As nuvens eram pontes, que também poderiam ser torres. Colossos atravessando os séculos em uma breve tarde de agosto. Um homem aleijado de muitos nomes apareceu naquela visão. Éramos fração do mesmo galho. Fitávamos às nuvens de mãos atadas. Com a outra mão, ele apontou uma águia, e me revelou o nome de todas as águias que vieram antes daquela. E com o lábio descarnado, me cantou o sono do sol. Por fim me pediu para guardar segredo. Eu não obedeci. Repetia cada som bordado de ouro em minha boca úmida.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

[Do retorno de Orlando] A última hora do primeiro dia



Ainda que Orlando grunhisse a língua dos porcos, não haveria sequer um demônio na terra que lhe desse ouvidos. Homem e porcos era a ordem.  E Orlando já se retirara da presença de ambos havia vinte e quatro anos. Não de todos, mas na maior parte do tempo estava só. Não se reproduzia com eles a solenidade, nem comunicava qualquer intimidade. Dos motivos para Orlando se retirar assim à montanha do próprio espírito, eram os hábitos homens: restavam apenas os maus, dizia. Relegavam-se em governo de luxúria superior a dos porcos, no entanto, não se eximia certa civilidade estabelecida pelas horas. Espécie de balança que ia da bestialidade ao relógio. De manhã, despertavam para trabalho. Queixavam-se do sol lhes queimando o rosto pela janela, e da chuva elevando o nível dos rios, afogando as ruas, e conduzindo corrente elétrica dos postes até os nervos e matando o incauto. Fosse espremidos em conduções e envoltos em fumaça, ou em ar refrescante e mal ventilado, tratavam os dias como longa fila espera. E ao retorno, alguns propositalmente se perdiam pelo caminho. Atulhavam prostíbulos como costume de marinheiros, mas sem o respeito para com os monstros sob as ondas. Apesar de serem tratados como bestas pelas meretrizes, de fato não eram alinhados a natureza das feras. Enquanto a dignidade das feras se sustentava no mérito da violência inerente à criação, a dignidade dos homens não ia além do primeiro degrau de Jacó, dizia Orlando. Nasciam sem ouvir de onde vinha o som da trombeta, todos os dias a tropeçar e cair, e a romper com a nuca, enfim, a irrigar a calçada com o próprio sangue. Este era o novo mundo no qual Orlando nunca nascera, pois era ele o mais velho espírito entre os viventes. Já não se reconhecia entre os demais. Não se recordava se, por uma mulher, de fato um dia fora concebido. Indagava se talvez não fosse ele seu próprio pai. Ele mesmo a própria árvore, frutos e sementes.






Orlando acordou sonhando com a mesma escada que atravessava os nove andares até o ponto mais alto da criação. O fôlego abandonou os pulmões. A garganta contraiu com as duas mãos delicadas de Catarina atravessando a pele com uma lâmina. O som saiu baixo demais para algum anjo ouvir, ou mesmo para que algum diabrete curioso viesse em seu auxílio. Estava Orlando só, longe da natureza e à beirada do precipício do lábio da morte, que se abria. Não houve instante para arrepender-se de tê-la levado para casa, aquela jovem cheia de vida e sem lar. Era caridoso. Vira Catarina nas vielas miseráveis e decidira dar-lhe abrigo e pão, como lhe ensinara a mãe, e o ordenava o mandamento. Ao nascemos, a matriarca dizia, uma trombeta é tocada em algum lugar. Ele imaginava o timbre metálico vibrar nos ouvidos, o som atravessando o túnel feito de latão até atingir o espírito preso à garganta. Nunca mais lembrou daquele som. Mas agora ele ouvia. Porque era melodia igual ao que os anjos tocam no último dia de nossa vida. Quando retornam, algumas pessoas se recordam pouco das notas. Outras confundem a música da morte com luz atravessando o poço. Orlando, ao abrir os olhos sobre os refletores de mercúrio e descobrir que a carne ainda era parte de si, como milagre, retinha na memória cada compasso e nota daquela música tocada pela trombeta. Agitou-se no leito em busca de uma folha. Uma caneta. Algo para traduzir em notas a música terrível que marcara sua mente como uma lança que atravessa o coração do homem preso na velha árvore.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mapa costeiro

Sobre o mar, nenhum filho do homem caminha, pois hoje não há tempestade.
À margem da enseada. Alheio ao atol, às angras, distante dos marinheiros submersos em bruma. Um albatroz coroa a penha. As penas farfalham. O céu está vazio. A vaga cinza se estende às veis do horizonte.
- É teu o oceano inteiro.



Interrompo a travessia por terra, caminho para eflúvio espumoso. Persigo os degraus das ondas.
A água, de repente, me espeta. Arremete contra meu rosto, me afoga. Agarra aos calcanhares, eu retraio. Adentro a concha em espiral secreta, meus ossos erodindo feito castelo.
As invasões, salinas e breves, de espuma me enchem os pulmões.
Limpa da garganta a pronúncia do primeiro nome.
Água nos ouvidos me ensurdecem, em ameaça:

Ou o mar. Ou nada.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Histórias de um entregador de sonhos - 1 ' Encontro com a sorte '

Leia o prólogo AQUI

Na manhã seguinte, depois de alimentar Judas com restos de pizza de micro-ondas, fui procurar um emprego. Achei que seria mais fácil trabalhar o mais próximo possível de casa, então decidi ser ajudante de qualquer coisa no condomínio.

Desci pelo elevador e fui para a área de lazer. O zelador estava na beira da piscina tirando algum animal morto com um gancho. Ele me viu e acenou de forma agradável. Acenei de volta, sorrindo e dei meia volta. A última vez que vira algo morto fora um rato que meu primo Hen. explodiu no natal. O ramo da limpeza definitivamente não era para mim.

Eu nunca acreditei em boa sorte, nem naquela época ou hoje em dia. E permaneci sem acreditar que teria alguma enquanto andei por longas horas bisbilhotando as lojas da Alameda d’Ispazzio, no centro da cidade. Durante minha procura observei cada pessoa suportando em pé o trabalho de vendas de roupas e acessórios esportivos. Devia ser doloroso ficar encurvado na caixa registradora apertando centenas de teclas feito um robô. Não conseguia me imaginar igual a eles. Ficar plantado atrás de um balcão engordurado de fast-food, vestindo uniforme e dizendo: “bom dia, senhor, em que posso ajudar”.

Um coroa bem insistente me parou. Queria que eu dissesse meu telefone e endereço. Senti um pouco de pena. Ter que perguntar nomes e endereços de prancheta na mão e meio velho daquele jeito. Tudo bem que minha avó trabalhou até morrer. Mas, pelo que meus pais me contaram, ela quis morrer assim. Ele tinha cara de que nunca teve o que desejou de verdade.

Já eram três horas da tarde e tinha no estômago apenas a pizza que comera de manhã. Faminto, sentei na praça de alimentação de uma galeria, dessas de dez andares e com montes lojas para tatuagem e discos.

Senti a barriga roncar.

O filho de um casal na mesa da frente começou a espernear porque o brinde do lanche não era o Homem-Aranha. A criança gritou tanto que eles se levantaram constrangidos, deixando um monte de hambúrguer e batata frita. Sem pesar, levantei e me sentei à mesa. Acho que ninguém realmente se importa se você faz isso de forma natural. Devorei o máximo que podia e pus o que restava numa sacola para Judas comer mais tarde.

Depois de algumas horas perambulando pelo centro, não tinha mais o que fazer. Pouco me importava se não tinha conseguido emprego. Não esperei a noite cair. Distraído, retornei para casa andando. Quando eu tinha uns treze anos testava minha noção de direção entrando em ruas aleatoriamente, só para ver se conseguia voltar sem me perder.

Já estava tarde e não sabia que ruas eram aquelas ou qual a direção certa. Eram bem mais silenciosas que a minha. Devia ser a área onde pessoas ricas moravam. Havia tantas árvores que mal se via a luz dos postes. As copas cobriam o céu formando um túnel de folhas que ainda não começavam a cair. Foi como eu disse antes... não existe motivo para acreditar na boa sorte. Com exceção de uma vez na vida: numa noite em que se perde distraído, e só percebe uma coisa estranha e com baixa estatura no seu caminho.

A boa sorte se parece um anão.

A primeira impressão que tive era de ser um anão andando rapidamente na calçada oposta. Depois achei que fosse uma anã. Apertei a visão ruim na meia luz. Talvez fosse uma garota. Não dava para saber.

Eu a segui. Tentei manter distância para não parecer um psicopata. Apesar disso, ela acelerou os passos. Devia ter-me ouvido pisar nas folhas. Quando ela virou à direita, esperei um instante antes de prosseguir. Então fui para o mesmo lado. Era uma viela que conduzia à estação de trem que reconheci ser a próxima de minha casa. E a coisinha baixa estava lá, na outra extremidade da rua, de braços cruzados, mas não estava assustada. Pelo contrário, parecia sentir bastante raiva; me senti idiota, de um jeito que é bem provável que você também se tenha sentido em algum momento na vida. Admita. E talvez tenha feito algo parecido: para me desculpar pela esquisitice e me explicar, acenei andando rápido em sua direção. Antes de eu dizer qualquer coisa ela virou as costas e correu para a estação. Acelerei o passo, mas sem correr; e me sentia tão estúpido que pedi a Deus para não conseguir alcançá-la, para tropeçar, espatifar o rosto no chão e desmaiar e nunca mais acordar.

Ela era mais veloz do que imaginei. Quando subi as escadas para a bilheteria, já estava na plataforma. Não consegui focar claramente, sem óculos, mas acho que ela levantou a mão e fez sinal nada delicado com o dedo do meio. Não ouvi se me xingou também, pois o trem se aproximava.

Apesar de pouco enxergar, reparei algo em seu peito, como um broche. Podia ver perfeitamente. Era verde e parecia um trevo de papel. Quando abaixou o braço, a folhinha caiu. Ela não percebeu. Entrou no vagão assim que as portas se abriram. Eu queria gritar, mas o segurança enorme me intimidou lá de baixo. A folhinha balançava com o sopro dos gases da locomotiva. Ficou na beirada da plataforma, e a moça agora exibiu os dedos médios de ambas as mãos pela janela do vagão, pondo a língua para fora.



O segurança da plataforma observou a moça e tornou a olhar para mim, que não tirava os olhos da folha. Calmamente, ele pegou-a, num segundo antes que caísse no vão dos trilhos. Depois veio até onde eu estava. Era um sujeito enorme, provavelmente a espessura dos braços era a mesma de meu corpo.

- Sua namorada? – perguntou.

- Oh. Sim. É. Sim, senhor.

Ele percebeu minha hesitação.

- Tem certeza que conhece a garota?


- Claro. Ela perdeu esse trevo, que eu dei no dia de São Patrício, - tentei expressar decepção.

- Uhum, - fungou, coçando o nariz. – E qual é o nome dela?

- Mielle, - disparei sem pensar. – Estava com raiva, você sabe, porque esqueci o aniversário de namoro. Elas são sempre difíceis assim?

- Não sei. Mas compreendo, - respondeu mudando a expressão para um meio sorriso. – Vou te dizer, rapaz. Aconteceu algo parecido comigo. Minha quarta esposa tentou me matar, sabe. Esqueci o aniversário de casamento.

Ele falava sorrindo. Não sou o tipo que acha tentativa de homicídio engraçado por motivo algum, mas sabe como é... eu ri. De verdade.

- Jovem, qual seu nome?

- Alfredo, - menti sem querer.

- Alf, posso te chamar assim? – ele tinha um ar paternal. Pôs a mão na minha cabeça como se eu fosse um garotinho. – Ouça com atenção: tenha muito cuidado na hora de escolher com quem você vai ficar para sempre. No meu caso foi sorte. Na hora que ela começou a me sufocar com o travesseiro, eu tinha lembrado de dormir com minha Bereta. Nem todos têm a sorte que eu tive.

- Bereta?

- Sim, Bereta. É a marca do meu revólver.

Senti calafrios.

- Com certeza, senhor, - olhei para a identificação no uniforme, - com certeza, senhor Trajano.

- Vai para casa e reflita bem sobre isso, meu filho.

Entregou-me o trevo e o guardei no bolso do casaco.

- Vou passar a noite toda refletindo.

O sorriso fingido só saiu do meu rosto a um quilômetro da estação. Não tinha dinheiro para passagem e tive de voltar a pé. Estava escuro, mas pouco me importava os tropeços nas rachaduras das calçadas.

O insulto da moça não me saia da cabeça. Não era certo ir atrás dela daquele jeito, mas como ela podia ser tão ignorante e me insultar assim? Faltando poucas quadras, sentei num tronco para descansar as pernas. Na verdade não eram as pernas. Era a folha que me incomodava. Queria vê-la outra vez, como aquela vontade que você tem de olhar para os sapatos novos a todo instante quando é criança. Tirei-a do bolso e ergui contra a luz do poste.

Algumas pessoas não creem que é possível a sorte aparentemente sem motivo te fazer companhia. Tenho amigos que pensam assim. São as mesmas pessoas que jamais acreditaram em minhas histórias, ou mesmo que eu existi. Mas o que aconteceu, aconteceu de uma forma que não posso negar que foi de verdade. Ao lado do tronco na calçada onde me sentei, havia um poste de metal. Eu não ouvi nada quando a van branca desviou de um carro na contramão, subiu a calçada e se chocou contra aquela pilastra, o que impediu que passasse por cima do meu corpo. Não estava rápido o suficiente para estilhaçar o para-brisa, mas o ar com cheiro de pneu queimado agitou meu cabelo.

Dentro do veículo, o motorista não usava o cinto de segurança, e pendia a cabeça sobre o volante. Corri para ajudá-lo. Era um sujeito forte de cabeça que parecia um cubo de Lego, pouco mais alto que eu na época. Abriu a porta pulando para fora, tonto. Abaixou a cabeça curvando-se para frente e vomitou quase acertando meus pés.

- Oh, merda, - disse com a voz líquida.

Arrotou e cuspiu sangue. Eu peguei a toalha sobre o painel e ofereci a ele.

- Obrigado, cara, - agradeceu. – Quer uma carona?

- Você está bem? É melhor ir ao hospital, - respondi compassivo.

Ele me ignorou.

– O seu carro. Acha que vai precisar de reboque?

Ele voltou ao veículo. Não demorou a dar a partida. Deu marcha ré, alinhando ao meio fio. Depois abriu a porta do passageiro e disse:

- Não tenho seguro. Você quer ou não a carona?

Meti o trevo no bolso.

- Tem certeza de que não quebrou nada, cara? Sua testa está sangrando.

Ele limpou a ferida no meio dos olhos e respondeu:

- Eu não tenho e nunca faço questão de duas coisas nessa vida, amigo. Seguro e frescura. Vai pra onde?

- Estou indo para o condomínio Vésper.

- Então é para lá que eu vou te levar.


Entrei no veículo aliviado porque não precisaria mais andar. Todavia, aquele sujeito não me levaria a lugar algum. Antes de pisar o acelerador e engatar a primeira marcha, ele desabou sobre o volante como um búfalo abatido em uma tourada fazendo a buzina berrar sob o peso de sua enorme cabeça. 


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terça-feira, 3 de maio de 2016

Dos sentidos

Respira o ar que sai da boca. O próprio perfume lhe basta. Há ocasiões em que o coração engole o sangue; as mãos e a postura fremem. O poro abre de repente: a pele expele memória. Os segundos se abatem na impostura das aves nos beirais do prédio. Em favor do momento, ninguém passa por nós. Quando mal, a boca transborda água. Dentro dela, duas tempestades sucedem ao toque. Não se enxerga sob as dunas de névoa algum continente. Apenas montanha de cinzas. Dois caprinos duelando à beirada da rocha. A ponta dos chifres fere o flanco dos céus em sua queda.



Crédito da foto: Lost in one's own thoughts by TMPhtographia



Os corredores se incendeiam de luz azul elétrica. Entre dentes, retém sabor de morangos. Fecho os olhos e vejo o sorriso tateando minhas digitais, um vitral colorido no escuro. Agarro à rede feita de cabelo ao redor do rosto. Sob as unhas guarda minha pele e meu sangue.
A língua lança uma pedra.
Estilhaça a janela do santuário. 

sábado, 23 de abril de 2016

Ruído do tempo (trecho de "O dia escondido")


"Era outono. A pequena surpresa surgia seguramente sobre os seis primeiros meses em que as folhas começavam a cair do alto das árvores. O vento começava a beber aos poucos as gotas remanescentes do último dia da estação e o inicio da outra. Dizia-se, às margens do período de celebração, que em tal gravitante transição, do verão para o próximo, se escondia um dia que tramitava à sombra de todos os outros. 







A luz de verão e a nudez das nuvens do outono, dizia-se, ofuscavam ao mesmo tempo que obscureciam, escavando em relevo um túnel, tornando tal dia em forma de segredo no vinco obtuso do bolso do tempo. E de todas as coisas que existiam no mundo inteiro, do oeste da água ao brilho na pedra da gruta, aquela era a única que para nós ainda restava alguma dúvida."

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Arthur ao tolo - Todas as histórias

"- E não se esqueça, meu bom tolo: o riso só ecoa porque as paredes da casa são protegidas por muralhas de pedra. E toda galhofa ilustrada de lisonja se acomoda à sombra da paz de espada. Não estamos ainda no Paraíso, amigo tolo. E se, não estou envolto de engano, não são doces anjos que habitam e perambulam errantes pela terra."

terça-feira, 19 de abril de 2016

Deleite II


Poderia sugerir tão somente: - é semelhante o deleite à inscrição que supõe um coração morno num tronco. Inscrição talhada por golpe de duas fúrias, ambas enamoradas.

E ainda que seque toda seiva da árvore, a memória morta da casca jamais esquecerá o som de nosso nome. Ela nunca mentirá. Denunciará ao sempre que foram duas as feras que por ali caminharam. E afirmará que foi ali, sob os lençóis de sua sombra, onde juntas se deitaram.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deleite I


De todas as coisas que hesitei nesta pretensiosa e tola anatomia, foi o deleite. Porque não se margeia com linha os movimentos do corpo. Não se costura na seda a viscosidade do desejo, o cheiro de fios de cabelo molhado e o calor da testa, das bochechas confusas, dos ombros aos lombos mordidos e costas arranhadas com garras. 

Créditos de Fotografia: PapelPapel (blogpapelpapel.blogspot.com)