sábado, 16 de setembro de 2017

Do marceneiro

Uma noite dessas meus pensamentos se aninhavam no teto feito pássaros. De repente, aos pássaros um detalhe na minha cama chamou a atenção. A cabeceira, nunca havia reparado: era ornada à orla com folhas de acanto esculpidas na madeira. Aquelas mesmas folhas de capitéis corintos idealizadas por Calímaco que coroavam colunas gregas, e que os romanos tantos apreciavam. Provavelmente o marceneiro que as esculpiu nunca ouvira falar no mito dos acantos que nasceram na borda do cesto deixado acidentalmente sobre túmulo de uma virgem.

Não demorou para os pássaros voarem pela janela e eu me dar conta de que nunca dominaria a arte de esculpir uma folha de acanto em madeira como ele.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Histórias de um entregador de sonhos - 8 'Sra. Carbot'

O ruído de máquinas de escrever e pássaros pulando de um lado a outro parou por um segundo. Depois de me analisarem por uns instantes, retornaram aos afazeres se movendo de um modo quase mecânico. Você pode não acreditar, mas, ao ouvir o estalo da fechadura atrás de mim, senti cada osso e órgão dentro de mim, como se o mundo todo tornasse a girar sob meus pés.

- É por ali, garoto.

O segurança corpulento me empurrou meio sem jeito. Enquanto era conduzido entre as inúmeras escrivaninhas, contornava as imensas pilhas de envelopes em escaninhos multiplamente compartimentados. Eu me sentia passeando nos corredores de uma colmeia de vespas, prestes a de ter o olho perfurado se me virasse para alguma daquelas pessoas esquisitas.

- Quer um pouco de água, rapaz? Você parece tonto.

- Foram muitas voltas.

- Sim. Não é um bom lugar para se perder.

A mão do segurança pesou gentilmente em meu ombro na tentativa de me acalmar. Aproveitei para fazer uma pergunta:

- O que eles estão fazendo?

- Não sei bem. Sra. Carbot diz que aqui é onde tudo se mantém funcionando.

Depois da resposta, que considerei evasiva, o segurança assoviou alegremente enquanto continuava a me conduzir em círculos a lugar algum. Talvez aquilo servisse para que eu não fosse capaz de voltar pelo mesmo caminho. Era certo que me perderia se ele resolvesse correr e sumir em algum beco à meia luz. Eu me amaldiçoei mil vezes por ter acordado cedo, por dar ouvidos àquela conversa de pagamento em ouro.

“Seu idiota”, resmungava sem abrir a boca.

As minhas pernas já estavam pesadas quando contornamos a última escrivaninha separada por divisórias. A única entrada naquela parede alta e extensa era uma porta cuja janelinha escura não transparecia nada do outro lado. Ele bateu com os nós dos dedos na superfície branca sem tirar os olhos de mim. Ouvi o som de cabo de aço esticado de cima, girando. Parecia uma roldana dentro de um fosso. Depois de alguns segundos, as dobradiças de uma velha porta pantográfica rangeram. O barulho me fez sentir nervoso na raiz dos dentes.

Ele abriu a porta sem cerimônias.

- A partir daqui você deve ir sozinho. É Só seguir até o final do corredor. Ah. E cuidado com a mão – avisou num sorriso franco. - Já vi alguns sujeitos perderem o dedo nessa porta. Sra. Carbot fica chateada quando isso acontece. Não temos seguro de saúde, você sabe.

- Obrigado, Sr. Trajano – agradeci tentando expressar sinceridade.

- Disponha! – me empurrou, animado, para dentro e fechou a porta.

Fiquei encolhido num canto do elevador e apertei o único botão no meio do painel dourado. Conforme subia, meu estômago pesava devido à alta velocidade. As luzes trêmulas ameaçavam a todo instante apagar. Pelo ruído dos cabos, deviam estar enferrujados e não eram trocados há séculos.

Além das maçanetas, portas, canos e todo tipo de utensílio possuir a estranha marca do trevo seguido do numeral quarto ordinário. Havia uma daquelas placas metálicas sobre o botão e no lustre que envolvia a lâmpada. Li os avisos de segurança com a mesma marca. Um trecho me chamou a atenção:

EM CASO DE EMERGÊNCIA, NÃO FECHAR OS OLHOS.

Quando o elevador parou, esperei a pantográfica mutiladora de dedos se abrir sozinha.

Não havia nada além de um corredor ladeado por portas mais diversas que você pode imaginar. A princípio, achei engraçado. Conforme caminhava sobre um extenso tapete verde felpudo , eu me sentia como Charlie na Fábrica de Chocolate. Todas aquelas portas altas, baixas, redondas, retangulares, portas de papel e de cobre. Algumas pareciam feitas de marfim com acabamento de couro, outras eram escamosas e brilhantes. Poderia dizer para você que estavam vivas e respirando, a espera de algum intruso para devorar.



Apertei os passos e abracei meu próprio corpo sem olhar para os lados. O pensamento aterrorizante de que encontraria uma porta que possuísse olhos, talvez dentes em uma grande boca fez minha pele se arrepiar. Pensando bem agora, acho que foi um exagero meu. Não havia nada de ameaçador, nem mesmo um ruído.

Não estava nem um pouco tranqüilo quando atingi a última porta. Uma placa de latão indicava que era o lugar certo.

SRTA. CARBOT – RH 

Estava gravado em letras grandes.

Girei a maçaneta e meti timidamente a cabeça pela fresta.

Não conseguia ver com clareza a parte de cima dos arquivos e armários espremidos na sala em meio à névoa. Apesar de ser um cubículo com pouco mais de quatro metros quadrados, o teto era alto, mais alto do que o topo de uma velha catedral. Senti um pouco de vertigem e esfreguei os olhos. Tive a impressão de não conseguir ao menos enxergar as vigas de sustentação lá em cima. Apertei os olhos para ver melhor. Uma sombra cruzou o espaço.

“Aves?”

Pareciam aves sobrevoando ao longe. As retinas ardiam. Depois de alguns segundo mirando diretamente para o alto, tive a impressão mais estranha da minha vida, a impressão de que, se olhasse por mais tempo, meus pés descolariam do chão e, em seguida, eu cairia para cima, me perdendo naquela estatura descomunal. Imediatamente baixei os olhos observando as rachaduras entre os tijolos na parede. Meu olhar se fixou a uns dez metros do chão, em uma espécie de janela. Era daquelas passagens de luz bastante comuns sobre a porta de entrada de casas dos bairros mais antigos. Não dava para saber a altura com exatidão, mas era por ali que vinha a maior parte da luminosidade. Do outro lado daquela abertura parecia ainda ser tarde da noite, ou pouco antes de amanhecer, talvez os dois. Uma brisa suave empurrava a névoa para dentro em espirais. Certamente era um lugar bem agradável, pensei.

De repente, uma voz ressecada chamou minha atenção para uma sombra em meio à névoa esverdeada.

- Uhm. Uhrrum. Bom dia.

O ventilador no canto da sala começou a girar. A fumaça vagarosamente se dissipou. Havia uma pequena mulher concentrada em um amontoado de documentos. Aquele rosto inexpressivo poderia ser confundido com uma geladeira usada. Sem tirar os olhos da papelada, ela se apressou em apagar o cigarro no cinzeiro e me chamou num aceno. Dei meio passo, quando, de repente, algo voou por cima de sua cabeça e soltou um punhado de envelopes pardos de onde saltaram montes de folhas. A coisa se espatifou fora do escaninho como um castelo de cartas. Nada se moveu além dos fios de cabelo da mulher.

- Ignore essa engraçadinha – ela apontou para a cadeira com uma caneta. – Elas fazem isso de propósito, bando preguiçosos. Fique à vontade.

- Obrigado.

Antes que pudesse me acomodar na cadeira, a mulher lançou o olhar sobre o aro fino e redondo dos óculos e perguntou:

- Com que freqüência o senhor tem pesadelos?

- O quê?

- Sonhos ruins. Quantas vezes você sonhou coisas ruins na última semana?

Era uma pergunta que uma psiquiatra ou maluco fariam.

- A senhora não quer saber minha identidade ou algo do tipo?

A mulher levantou a cabeça ajeitando os óculos na ponta do nariz e permaneceu calada. É claro que meu sorriso condescendente não alterou um milímetro da sua expressão de porta trancada. O silêncio me deixou ainda mais nervoso.

Encarei-a:

- Bem. Há algumas noites. Acho que tive um sonho ruim.

Os dedos se cruzaram sobre os envelopes como se eu não fosse mais tão desinteressante assim.

- E como foi?

- Antes de tudo, se não for muito abuso de minha parte, sabe, você poderia me explicar o que vocês fazem exatamente aqui?

- Sr. Noel já deve ter explicado que pagamos muito bem, não?

- Ele disse. Mas não me disse exatamente o que acontecia, - apertei os joelhos. - E o outro cara, como morreu?

- Não explicou que era uma empresa de entregas?

- Claro, claro. Isso eu sei. Não entendi muito bem que tipo de entrega... com todo respeito, dona, a explicação foi muito vaga. Eu preciso muito saber o que vou fazer aqui.

- Como quiser, garoto. Se não pode trabalhar em nossa empresa de entregas, pode voltar para casa.

Ela tornou a rabiscar, avaliar e carimbar os papeis como se eu fosse menos que a fumaça do cigarro que havia acabado de acender.

“Droga” praguejei mentalmente.

A lembrança de meus pais e da TV acenderam feito lâmpadas de Natal. Eles iriam me matar. Faltava apenas um dia. Talvez me chutassem para fora de casa por causa da TV. E Judas. Não tinha nem um pouco de comida para meu cachorro. Não tinha comida nem para mim. Mesmo que não me expulsassem eu iria acabar morrendo de fome.

- Vocês pagam diariamente? – perguntei.

Nada. Nem uma ranhura de expressão naquele rosto de porta de geladeira. Eu me movi no assento até o silêncio perturbador da mulher me vencer pela segunda vez.

- Trem – bufei. – É meio estúpido, mas tive um pesadelo com um trem voando em direção ao meu quarto esses dias. Um monte de luzes verdes. Meu cachorro ficou louco e – pensei duas mil vezes antes acrescentar algo sobre garota-do-trevo-de-quatro-folhas – e foi horrível. Só isso.

A menção da palavra trem pareceu atingi a dona ao ponto de fazer com subitamente largar a caneta na mesa.

- Não é verdade – disse. – Você deve estar enganado. Isso não me pareceu um pesadelo. Mas podemos acabar com essa dúvida num instante. Espere um pouco.

Da gaveta, Srta. Carbot tirou uma máquina estranha toda empoeirada. Era muito semelhante a um telégrafo antigo que eu já tinha visto numa enciclopédia quando criança, só que aquele tinha um pequeno globo transparente com raios estáticos dentro.

Ela pôs bem no centro da mesa e ordenou:

- Vamos, venha cá. Aperte isso.

Pouco aproximei minha mão direita do botão e o globo se encheu de luminosidade esverdeada, igual a uma pedra preciosa. Os raios dançaram ao redor do centro produzindo um barulho de rachadura. Eu não tive tempo de encostar, pois Srta. Carbot pulou sobre a mesa derrubando as folhas e segurou meu pulso.

- Tudo bem! Afaste sua mão.

Vagarosamente, pus os dedos suados no bolso.  Ela continuou apreensiva.

- Não é possível – murmurou consigo mesma. – Você não parece o tipo, bem, não é um sonhador. Vejamos... – observou mais um instante a esfera antes de guardar o aparelho de volta na gaveta. - Ao menos não parece ser um mal sujeito, um tipo maluco que persegue as pessoas por aí, não é?

Esboçou mal o primeiro que foi também o último sorriso.

- Enfim, isso também não interessa. Terá que servir.

Tirou algumas folhas de diversas cores e ajeitou uma sobre a outra com carbono entre elas.

- Preciso só de mais uma coisa, sonhador. Pense muito bem no que você vai responder, porque seu pagamento, ou melhor, o resto de sua vida dependerá disso.

“Em que inferno estou me metendo” pensei.

- Qual é o seu sonho?

Aquela pergunta acertou meu rosto como um chicote. Hesitei um segundo. Sabia que ela não toleraria outra onda de desconfiança.

- Não nos leve a mal, rapaz – ela disse em um tom menos áspero. – Modéstia à parte, para nós, nenhum sonho é impossível, mas ouça bem e entenda: nem todos são sonhos de verdade. Sonhos não são apenas desejos, apesar de irmãos muito próximos. É comum os candidatos se confundirem.

Olhei para os lados.

- Posso chegar perto de você?

- Claro.

Desajeitado, contornei a mesa. Envolvi a boca com a mão em concha para sussurrar no seu ouvido. Depois que ela assentiu, eu fiz um pedido:

- Poderia deixar isso entre nós, Srta. Carbot. Quero dizer, não precisa anotar isso na sua folha, precisa?

- Sinto muito. Já está anotado. Mesmo se eu não quisesse, tudo já estaria escrito. Não se preocupe. Ninguém vai saber se você não quiser.

Pensei que estivesse conseguindo alguma intimidade ali, mas estava enganado. Depois que falei, seus olhos azuis faiscaram como aviso para que eu me afastasse. Retornei ao assento reclinando a cadeira. Senti o estômago roncando de fome.

A lentidão com que preenchia fosse-lá-o-que-fosse-aquilo me lembrava aqueles funcionários preguiçosos de cartório. Após a última assinatura, Srta. Carbot carimbou uma via rosa.

- Pronto. Agora vá ao almoxarifado e pegue seu equipamento de segurança. Ah! E faça o favor de comer alguma coisa, ok? Sinto o seu bafo daqui. E quanto ao pagamento: é semanal. Em ouro. Tudo vai depender de como você vai se sair. Boa sorte.

“Boa sorte.”

Agarrei aquelas palavras com toda a minha força e fui em busca do almoxarifado naquele labirinto.

Interlúdio de Histórias de um Entregador de Sonhos

Primeiro. Depois de tanto tempo, não espere alguma continuidade necessariamente triste ou feliz. Na verdade, peço que não espere fim algum. Apenas conto a história conforme ela tem acontecido. Peço que deixe qualquer esperança de lado. Não vejo nem sombra de um ponto final no horizonte próximo.

Segundo. Pense nesta história como metáfora de dois cometas. Imagine que lá no alto há dois cometas eternamente fadados a se chocar e a se ferir. Algumas pessoas, que já se sentiram como um cometa descontrolado sabem como é. Bem... não sei se isso é necessariamente ruim, mas não posso considerar tal impacto devastador algo trágico ao ponto de não ser maravilhoso na perspectiva de alguém como você, que chegou até aqui para me ouvir. Tendo a pensar que não seria a mesma coisa se Píramo e Tisbe não tivessem morrido de maneira tão terrível. Do contrário, o coração dos deuses jamais teriam se comovido. As amoras nunca seriam avermelhadas. Enfim. Creio que ainda more no seu coração sensibilidade suficiente para me entender.

Ademais. Sou grato, entre fraturas de espírito que nunca haverão de se encontrar, e grato por me mostrar a luz sob a porta. Eu não passo de mais um cara perdido no escuro deste sonho; - nos encontramos no capítulo oito. Ou nunca mais, como dois gatos perdidos no deserto de cimento e luzes. Pff...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Última vez

- Vi belas coisas hoje. Uma criança tentando desvendar o sono no colo de outra com a ponta dos dedos. Lá na frente. Um rapaz de pé, beijando repentinamente a testa de sua mãe sentada. Depois, vi que estava enganado. Ela se virou e desceu do ônibus. Era sua mulher grávida. Eu ri. Na calçada, um homem enorme carregando um cachorro minúsculo e inofensivo debaixo do braço com uma focinheira. Passou por outro, sujo e magro, tentando acender um montinho de papel amassado com uma caixa de fósforo molhada que encontrara na rua. Atrás, um garoto de casaco com o rosto iluminado pela tela de um fliperama no meio do nada.

Dos sentidos

Respira o ar que sai da boca. O próprio perfume lhe basta. Há ocasiões em que o coração engole o sangue; as mãos e a postura fremem. O poro abre de repente: a pele exala jasmim e enxofre. Os segundos se abatem na impostura das aves aos beirais do prédio. Em favor do instante, ninguém atravessa o corredor. Ninguém passa por nós. Quando mal a boca transborda água. Dentro dela, duas tempestades sucedem ao toque. Não se enxerga sob as dunas de névoa algum continente. Apenas montanha de cinzas. Dois caprinos duelam à beirada da rocha. A ponta dos chifres fere os céus em sua queda. O lábio da concha se abre. Os corredores se incendeiam. Entre dentes, retém sabor de morangos. Fecho os olhos e vejo o sorriso tateando minhas digitais, um vitral colorido no escuro. Agarro-me à rede feita de cabelo ao redor do rosto. Sob as unhas guarda minha pele e meu sangue. A língua lança uma pedra. Estilhaça a janela do santuário.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Anatomia de Julho - Passagem secreta

O Sol se encerra no ventre da noite. Não restam direções, trilhas ou estradas. Apenas o pulso de meu sangue. Abraço o sorriso escorrendo à boca. Escondo meu espírito nos vincos de uma pirâmide. Está submersa no fundo do Atlântico. Meu derradeiro monumento. Então, agora, inevitavelmente agora, meu corpo descansa. Estou por fim em casa, acolhido pelos ângulos permeados por água negra. O dia não nascerá. 




Meu espírito segue o fluxo: como barco em silêncio sobre o Nilo. Singro entre flores brancas. Elas me observam sem desabrochar sua seda. Testemunho o nascimento de meus pais, e dos pais de meus pais, em hieróglifos gravados nas ondas. Sigo o labirinto. As teias me elevam ao topo. Não há círculo que não se rompa num ponto. Até hoje não saberia responder para onde estava indo todo este tempo. Todavia, me habita, hoje, a certeza da origem da primeira semente.  

sábado, 24 de junho de 2017

Adaptação de um diálogo 18/06/2017;

Sim. Desde a primeira vez, quando o conheci. Era um lumieiro sinuoso jogando suas luzes tortas no mar mundano. Sinto isso. Tem a ver com procurarmos e acharmos, ao mesmo tempo que uma luminosidade continua vacilante. Era isso que ele sempre dizia.

Naquele tempo me sentia feito animal com comida pendurada num galho sobre cabeça. Estava bem ali, mas nunca conseguia devorar. Desde então, continuo a andar sem consciência do que acontece de fato. Apenas seguindo o rastro torto de luz que ele deixou.

Quanto a sua partida, acho que é inevitável a separação. Separar parte de um mundo fatalmente maravilhoso e terrível. Nada mais correto do que errar como uma chama vacilante.

Não se poder negar que ainda estamos vivos. Não é apenas um lapso do sonho de um rei vermelho. Penso nisso quase o tempo todo: a forma como estamos renascendo a cada instante através de pequenos brotos que a princípio parecem sementes mortas de memória, insignificantes lembranças pelo caminho. As sementes estalam em silêncio no escuro e, de repente, retomam a direção do vento e do Sol que ele acendeu.

Não tive um último dia. No dia seguinte ele já tinha seguido seu caminho. Mas o último livro que ele leu eu sei. Confissões de uma Máscara. Eu li O Pavilhão Dourado. As últimas palavras que trocamos sempre me parecem uma fechadura entre o mundo é nós, Finalmente, a chave feita de histórias atravessa a fenda como extensão de nossa própria alma. Posso sentir por completo.