quinta-feira, 13 de julho de 2017

Anatomia de Julho - Passagem secreta

O Sol se encerra no ventre da noite. Não restam direções, trilhas ou estradas. Apenas o pulso de meu sangue. Abraço o sorriso escorrendo à boca. Escondo meu espírito nos vincos de uma pirâmide. Está submersa no fundo do Atlântico. Meu derradeiro monumento. Então, agora, inevitavelmente agora, meu corpo descansa. Estou por fim em casa, acolhido pelos ângulos permeados por água negra. O dia não nascerá. 




Meu espírito segue o fluxo: como barco em silêncio sobre o Nilo. Singro entre flores brancas. Elas me observam sem desabrochar sua seda. Testemunho o nascimento de meus pais, e dos pais de meus pais, em hieróglifos gravados nas ondas. Sigo o labirinto. As teias me elevam ao topo. Não há círculo que não se rompa num ponto. Até hoje não saberia responder para onde estava indo todo este tempo. Todavia, me habita, hoje, a certeza da origem da primeira semente.  

sábado, 24 de junho de 2017

Adaptação de um diálogo 18/06/2017;

Sim. Desde a primeira vez, quando o conheci. Era um lumieiro sinuoso jogando suas luzes tortas no mar mundano. Sinto isso. Tem a ver com procurarmos e acharmos, ao mesmo tempo que uma luminosidade continua vacilante. Era isso que ele sempre dizia.

Naquele tempo me sentia feito animal com comida pendurada num galho sobre cabeça. Estava bem ali, mas nunca conseguia devorar. Desde então, continuo a andar sem consciência do que acontece de fato. Apenas seguindo o rastro torto de luz que ele deixou.

Quanto a sua partida, acho que é inevitável a separação. Separar parte de um mundo fatalmente maravilhoso e terrível. Nada mais correto do que errar como uma chama vacilante.

Não se poder negar que ainda estamos vivos. Não é apenas um lapso do sonho de um rei vermelho. Penso nisso quase o tempo todo: a forma como estamos renascendo a cada instante através de pequenos brotos que a princípio parecem sementes mortas de memória, insignificantes lembranças pelo caminho. As sementes estalam em silêncio no escuro e, de repente, retomam a direção do vento e do Sol que ele acendeu.

Não tive um último dia. No dia seguinte ele já tinha seguido seu caminho. Mas o último livro que ele leu eu sei. Confissões de uma Máscara. Eu li O Pavilhão Dourado. As últimas palavras que trocamos sempre me parecem uma fechadura entre o mundo é nós, Finalmente, a chave feita de histórias atravessa a fenda como extensão de nossa própria alma. Posso sentir por completo.
Às vezes, quando faço alguma besteira ou penso alguma idiotice, consigo ouvi-lo rir dentro de mim, rindo da minha cara como quando lhe contava minhas desventuras.

- Seu maluco, ele dizia.

Às vezes parece que consigo senti-lo por completo.

É curioso como o fim da vida nos aproxima de maneira tão radical de quem amamos.

sábado, 13 de maio de 2017

Uma fenda no quadro

Obs.: Texto originalmente publicado no blog Papel Papel.



Desde a infância eu não me interessava mais por quebra-cabeças. Contudo, minha apatia durou até quatro anos atrás. 


Certo dia, minha mãe trouxe uma bolsa grande com um monte de caixas e entrou pela porta dizendo: “Olha o que eu trouxe, Jonatas”. Ela foi para sala e pôs a maior das caixas que tinha uma bela e colorida ilustração sobre a mesa. Não me importei a princípio. Ao decorrer da semana, comecei a observá-la. Tardes inteiras debruçada sobre os cotovelos, ajeitando os óculos sobre o nariz para não cair no montinho de peças. Seu gesto me parecia esconder algo que me chamava a atenção, como acontece com a luz de vela que atrai a curiosidade das mariposas.


Duzentas, quinhentas, mil, quantos fossem os números do desafio, ela saciava um apetite pelo jogo. Insistia, e eu sempre procurava saber se ela estava lá, esforçando o olhar através das lentes, até, por fim, a imagem se formar. Depois de terminado o jogo (que durava até semanas), emoldurava e presenteava alguém com o quadro. E logo começava a montar outro e outro, como se montando pedaços de um destino sem fim, sem se importar com o que passou. Apenas seguindo adiante como o velho mundo.


Certa vez ela montou um quadro que não gostei muito. Não sei explicar exatamente por que, mas criei um pouco de antipatia pelo desenho. Achava-o desajeitado, imagino agora. Mas nunca cheguei a sentir aversão. Só o considerava medíocre comparado aos quebra-cabeças que ela me deu de aniversário (uma suntuosa construção europeia do século XVII-XVIII). O quadro desajeitado não significava muita coisa ali, pendurado na parede da sala e me encarando com aquele monte de árvores com folhas vermelhas, como se estivessem condenadas a queimar eternamente em chamas secas. Era só isso que eu conseguia enxergar. Árvores vermelhas e um casarão desengonçado projetando uma ponte sobre um rio. Nada mais.




Seja qual for o motivo, ignorei a presença vermelha por alguns anos. Até que, em uma tarde que me lembro bem, deitado desinteressadamente no sofá, percebi que faltava uma peça. Levantei e toquei o vidro embaçado, bem na quarta peça de cima para baixo, a décima primeira da direita para a esquerda. Passeei os olhos ao redor do buraco e, na falta daquela peça, notei que havia montanhas. Muitas montanhas ao fundo. Uma bela cordilheira que sumia como fuligem azulada, confundindo-se com o céu anil, imitando as cores e formas do ventre das nuvens logo acima. Senti meu olhar cair como num precipício. Estava tudo tão distante, mas, de algum modo, céu e montanhas se ajustavam de forma tão íntima.


Dali por diante percebi outros detalhes. Um casal de patos na parte superior do rio, ao lado do moinho; um homem vestindo um chapéu, calças e casaco azuis montado em um cavalo azulado com manchas brancas; cervos se aproximando de um casebre de pedra escondido no bosque. Cada fração nova se revelava pouco a pouco, conforme sua própria vontade.


Entre todas as coisas que percebi no quadro, a mais curiosa a se destacar foi que não havia somente árvores de folhas vermelhas, mas algumas bem claras, entre dourado e branco, e outras amareladas num quase tom verde. Os pinheiros são os únicos que mantêm suas folhas absolutamente verdes e vivas, apontando como lanças, como se almejassem espetar o firmamento. Enfim. Posso com absoluta certeza que o perfeito retrato de outono está pendurado bem no meio da parede de minha sala, me observando. O longo e suave Outono que parece durar até agora.




Não ouso afirmar que algum dia eu vá gostar de montar quebra-cabeças como minha mãe. A coisa mais próxima a isso é minha sede por ajustar as palavras até formar uma história. Mas fico satisfeito ter aprendido com ela a observar a beleza sutil de algo que primeiramente não apreciei. Talvez esse seja o segredo para muitas coisas que perdemos e não percebemos. Algo que esteve debaixo do nariz o tempo todo e só notamos depois de sentir falta de uma peça. Não sei. Sei apenas que daqui por diante evitarei desprezar quebra-cabeças, especialmente se neles eu encontrar peças faltando, como fechaduras abertas com segredos do outro lado, - igual ao que minha mãe deixou para mim.



P. S.: A ilustração do quebra-cabeça a que me refiro é obra da premiada artista americana Kathy Jakobsen. Para quem desejar conhecer mais obras visite: http://www.kathyjakobsen.com/

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 2)



Leia os capítulos anteriores AQUI

O motorista pôs a mão no meu ombro e fez questão de abrir a porta.

- Agora é com você, amigo. É só entrar e esperar. Srta. Carbot é o nome. Ela vai te perguntar um monte de coisas estranhas e vai tentar te botar medo. Ignore. Diga que você vai ser o novo ajudante do carro Noel RRT-224o, ok?

Consenti, abaixando a cabeça, e desci do carro.

- Eu vou carregar nossas tralhas e te encontro logo mais.

- Ok – respondi sem jeito.

- Pode entrar sem bater.

Confesso que só naquele instante percebi o quanto poderia ser estúpido ter entrado naquele carro e chegado até ali. Ninguém sabia para onde eu havia ido, nem os poucos amigos que eu tinha. Não deixei ao menos um bilhete avisando aos meus pais. Entretanto, um formigamento começava a crescer em meu estômago. Curioso, pus a mão na maçaneta. Pela fresta da pesada porta ouvi o som organizado de máquinas de escrever e motores e tilintar de sinetes, como se tocassem uma só música. As dobradiças rangeram parecendo algo vivo.

Então, como se o destino me pregasse uma peça pela segunda vez, não foram as inúmeras mesas desordenadas com máquinas de escrever ou os pássaros empalhados usando óculos de piloto sobre as estantes dos armários que primeiro vi; nem foram pessoas baixas demais penduradas nas escadas estreitas apoiadas em torres de arquivos que deviam estar a dez metros do chão, não notei que todas olhavam ao mesmo tempo para mim. Não. Não percebi nenhuma daquelas esteiras com pacotes com tamanho que iam de extra-grandes-hipopótamos a menores que dedos mindinhos, subindo e descendo, de um lado para outro sem parar; nem foram os pássaros voando de uma lâmpada a outra pendurada em lustres coloridos pendurados por finas correntes no teto, como se fossem rapazes mensageiros, entrando em saindo de um complexo de calhas douradas que perpassavam todas as paredes ao teto oval. 

A princípio, só percebi uma coisa. 

Ela tinha o cabelo incomodamente colorido, mas não achei que fosse possível ser a mesma garota. As cores tinham mudado. 

Todavia, estava enganado. 

Usava uma saia bastante curta e inadequada para aquele ambiente, e vestia uma camisa roxa de listras pretas e um avental verde, provavelmente uniforme da companhia. Reconheci pelo jeito que se movia entre as escrivaninhas, e de forma alguma era uma anã, apesar de ainda me parecer bastante pequena.

Sim, você está certa em pensar que fui idiota o suficiente para sentir aquele mesmo impulso estúpido de segui-la, como fiz na estação. Meti a mão no bolso para pegar o trevo, mas antes que conseguisse mover um passo, um cara alto se pôs na frente.

- Boa tarde, senhor... – pelo uniforme que vestia, era o segurança.

- Oh, sim – respondi, estabanado, tentando ver pelos lados de seu corpo. – Srta. Carbot. Carro Noel KNM-224.

- Não estou entendendo, senhor... – insistiu, acompanhando o meu movimento e impedindo que olhasse. – Poderia me dar mais informações?

Quando finalmente desisti de procurar a moça do trevo de quatro folhas, notei a tarjeta de identificação.

“Trajano?” 

Sabia que conhecia de algum lugar. Ele me encarou nos olhos. Era a mesma fisionomia. Queixo bruto e olheiras sorridentes. O mesmo segurança que havia me dado a folha na plataforma da estação.

- Você está se sentindo bem, garoto? – disse.

Juro que tentei, mas não consegui mover um músculo da face sequer.

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 1)


Leia os capítulos anteriores AQUI

O céu continuou escuro até chegarmos a uma alta construção de tijolos desgastados . A primeira coisa que me chamou a atenção foram suas duas chaminés gigantescas cobertas de limo que sopravam gordas porções de fumaça. Em poucos instantes, as nuvens se abriam e os primeiros raios do sol iluminaram um complexo industrial tão antigo que parecia ter sido feito a partir das ruínas de um castelo. Estava todo coberto por uma camada densa raízes secas e trepadeiras escuras. Ao longe, o prédio parecia desativado, mas, ao nos aproximarmos com o carro, reparei nos vultos passando rapidamente pelas janelas longas.

As árvores à beira da estradinha eram assustadoras. Pareciam velhas bruxas petrificadas por alguma maldição à espera do fim dos tempos. Os galhos estavam tão encurvados e espaçosos que, em certos trechos, forçava o carro trafegar na contramão. Se estivesse a pé, teria de caminhar pela sarjeta abarrotada de folhas secas. Na frente de cada árvore havia estatuetas ovais bem esquisitas na cor verde. Diversas cabeças de aves sorridentes de órbitas vazias como se dessem boas vindas.

- Não encare muito tempo – disse o motorista, - elas podem se irritar.

Estremeci e virei a cabeça para frente. Ele notou meu nervosismo e riu.

- É uma brincadeira. Ninguém pode fazer nada com você aqui.

Após alguns minutos contornando o muro, notei um velhinho meio corcunda que aparava o gramado de um extenso jardim. Com dificuldade, estalou o pescoço em nossa direção e desligou o cortador. Acenou ao motorista como se fossem amigos.

- Bom dia, Noel! – disse o senhor tirando enormes óculos de proteção e limpando a grama da testa. - Pensei que não ia mais voltar.

O motorista parou o carro rente ao meio fio.

- Bom dia, Sr. Crapo. Eu tive sorte dessa vez. - Deu-me uma cotovelada, complementando, - este é o ajudante novo.

Acenei.

- Oh, sim. Soube o que aconteceu com o outro. Como era mesmo o nome dele?... Não que me importe com detalhes. Mas foi terrível, terrível, sim. Espero que esse aí também não se esqueça da sorte em casa.

- É. Foi triste - fungou. - Sabe se as guias já estão prontas?

Sr. Crapo coçou os pelos na orelha e balançou o queixo.

- Nada. O escritório abriu tarde hoje, e parece que tem um caçador rondando por aí...

- Eles estão atrasados de novo, não é?

- Bem... é o que os rapazes da triagem estão dizendo.

- Essa bagunça ainda vai acabar falindo um dia.

O velho abriu a boca mole para gargalhar, mas não saiu nada mais que um pigarro viscoso do fundo da garganta.

- Tem razão, tem razão. E tenhamos certeza, rapaz: esse dia será o fim do mundo!

O motorista não gostou da piada.

- Cuidado com o que fala, velho.

Sr. Crapo bateu duas vezes nos lábios enrugados num sorriso.

- Oh. Desculpe. Às vezes esqueço que você é supersticioso.

- Não sou supersticioso. Mas não tem motivo pra ficar me agourando. – Virou para mim. – O que foi? Está rindo de quê, nanico?

- De nada, - respondi, contraindo as bochechas.

Engatou a marcha e balançou a cabeça tentando demonstrar que não se importava.

- Tenha um bom trabalho, velho. E cuidado para não cortar um dedo outra vez.

O rosto de Crapo ficou vermelho como o de um bêbado envergonhado. Ligou o motor do cortador no máximo, espalmou as mãos para nós e disse, com a voz mais alta do que o estrondo:

- Não se preocupe, moleque! Ainda me restam sete dedos. Sete é meu número! De sete não vai passar!

A van se afastou pela estrada de pedras contornando mais uma vida inteira de muro. Quando já imaginava que aquela viagem nunca teria fim, chegamos a um portão. As grades eram bastante próximas, quase não dando para ver o que havia do outro lado. Não era feio, mas tão alto e fosco que me deu a impressão de estar diante da entrada de um hospício.

- Esse velho é mesmo maluco – balbuciou. – Sujeito muito agradável, não acha?

- Ele é engraçado.

O carro ficou estacionado um longo tempo. O motorista buzinou diversas vezes, até que as grades rangerem e se abrirem. Logo em frente, se erguiam prédios de tijolos desgastados, cujos topos pareciam que em breve iriam cair. Eram bem mais altos do que vistos de longe. 

O mais curioso percebi em seguida: um monte de aves nebulosas empoleiradas nas chaminés. Elas tinham um comportamento estranho. Aguardavam a vez para saltar em direção ao edifício maior, formando uma espécie de fileira de espera. Faziam isso de maneira ordenada, como se fossem adestradas (ou inteligentes os suficiente para se organizar). Um pássaro gordo tentou passar à frente atropelando os menores, que responderam bicando violentamente e empurrando-o de volta para seu lugar. Elas continuaram ordinariamente até entrar na janela circular bem ao topo. Também possuíam algo como um cordão pendurado em seus pescoços (e algumas não pareciam ter só duas asas, dois olhos ou apenas duas patas). Tive a impressão de ver uma usando óculos de mergulho. Limpei a sujeira dos meus óculos duas vezes, mas estava muito longe e, ao colocar os óculos de volta no rosto, a criaturinha já havia entrado.



- São espertas – disse Noel, tirando algo de entre os dentes com a unha. – Se não tomar cuidado te arrancam um olho fora.

Dessa vez não parecia uma piada.

Um homem em uma cabine ao lado da entrada puxava preguiçosamente a alavanca para fechar o portão atrás de nós. Meu amigo o encarou irritado, mas foi em vão. O sujeito tornou a seu jornal coçando os caroços nos lábios sem nos dar atenção.

- Esse idiota às vezes finge que está dormindo – Noel disse alto.

Os fundos da fábrica era ainda mais curioso. Montes de carcaças e peças de trem empilhados ocupavam um espaço maior do que um campo de futebol. Uma crosta de limo verde brilhante cobria cada porção de metal enferrujado. Aquilo me deu arrepios, pois me lembrou por um breve instante do sonho da outra noite: o trem que vinha em direção à janela do meu apartamento.

Evitei olhar, temendo que algo se mexesse no meio das ferragens.

O veículo percorreu um extenso pátio cheio de rachaduras até chegarmos a uma espécie de galpão em anexo a um silo largo como uma baleia. Ele ficava exatamente na metade do prédio principal do complexo. Por sinal, tinha telhas alaranjadas muito bonitas, mas, bastante avariadas pela chuva e vento. Ali, o som de máquinas martelando e perfurando era mais nítido, como se estivéssemos próximos do coração de um gigante de ferro. Fiquei curioso, pois não avistara ninguém se movimentando pelas janelas e o ruído, quase musical, não parecia vir de lugar algum. 

Estacionamos próximo a uma porta. Sobre ela havia uma placa de cobre quase tão vermelho quanto um leprechaum, onde estava escrito:

Escritório de Relações Ulteriores e Departamento Impessoal
Quarta Folha S.A.
(Limpe os pés antes de entrar)


Leia o próximo capítulo AQUI



domingo, 18 de dezembro de 2016

Em honra




"Nossa vida é escrita e reescrita continuamente, como um sonho do qual despertamos sem saber que estamos em outro sonho, em camadas sucessivas, sem fim. Apesar de a escolha do caminho de tal campo onírico depender da dimensão de nossa vontade, há certa grandeza indeterminável que nos assalta de surpresa, coisas tão óbvias como a perda de pessoas que amamos.

Desculpe-me se não trato hoje do que de fato deveria falar: o livro que estou lendo, algum museu ou parque que visitei, músicas favoritas e comoventes, filmes interessantes etc. etc., mas não sou capaz de distinguir a arte que aprecio da vida que me atravessa, como sempre me ensinou um grande amigo que perdi esta semana. Segundo ele, nossos sonhos estão em um contínuo crescimento, uma ave que sobe infinitamente por um céu de um azul que nunca se acaba, ou um peixe que submerge e submerge sem nunca conhecer os limites da escuridão do mar. “Jonatas,” ele repetia. “O sonho sempre aumenta, ele sempre aumenta”. Confesso que nunca compreendi bem o significado daquilo. Quando me encarava com aqueles olhos arregalados da extensão do horizonte e sorriso de uma criança que acabou de descobrir o motivo de o céu ser azul, eu apenas concordava. Sempre me impressionava com a forma de meu amigo dizer, talvez por entender que ele também se impressionava com a minha própria forma de dizer as palavras. “Jonatas”, repetia depois de dar um tapa nas minhas costas. “Você é muito maluco”, e ria um riso que passava pouco do seu interior, como se ecoasse água em uma caverna sem fundo.



Acho que meio que percebia algo de familiar no reflexo daqueles grandes olhos de Buda. Talvez fosse isso que ele quisesse dizer. Cada vez que voltávamos para casa naquele largo trecho de estrada que o ônibus percorria, talvez estivéssemos, de certo modo, um crescendo nos olhos do outro. Não sei. Não tenho certeza se era como ele afirmava, se estávamos crescendo, se o sonho estava aumentando, mas atesto que além de dois caras voltando para casa, éramos rastro meio consciente de nossos próprios sonhos.

Sei que conjecturar aqui não é tão pertinente e adequado, mas Gulever me mandaria aos infernos se me abstivesse de me expressar o que desejo por causa de mera formalidade. Então, em honra a ele, digo: creio que seja a inevitabilidade da morte, essa é a palavra, que a inevitabilidade da morte seja outra misteriosa dimensão de grandeza à vida. Ela nos revela a certeza da eternidade, e há uma grande chance de jamais saber o porquê, nem mesmo depois de minha própria morte eu vá saber. Enfim. Tenho certeza de que Gulever gostaria muito de ouvir isso. E de certo modo, ouvir isso de mim mesmo é como se ele ouvisse. Você sabe. É impossível que se vá a parte dele que eu guardei aqui, dentro de mim. Estamos no mesmo sonho. Não há como fugir. É tão repetitivo. Tão verdadeiro. Renova-se e se releva tantas e tantas vezes. Fico feliz em saber de tudo disso."


Publicado originalmente no dia 11 de dezembro de 2016, no blog Papel Papel.